Como sair do armário quase levou jogador ao suicídio

jogadorHomens fortes chocando-se, narizes quebrados, lama. Essa é a ideia que, na Espanha, um país pouco amigo do rugby, podemos ter desse esporte que anima as massas no Reino Unido. Mas para Gareth Thomas, jogador emblemático do País de Gales, o primeiro a jogar 100 partidas por sua seleção, a parte realmente difícil foi ter que manter em segredo que é gay. “A batalha que tive que travar como pessoa foi dez vezes pior que as batalhas no campo. Eu era forte fisicamente, mas mentalmente fraco e com medo”, diz.
Foi no final de 2009 que Thomas (Bridgend, 1974) tornou pública sua homossexualidade. Levando em conta as poucas saídas do armário registradas no esporte, é possível suspeitar que anunciar sua homossexualidade no vestiário de um time de rugby não deve ser fácil. Nesse momento, já no final de sua carreira, Gareth Thomas admitiu ao Daily Mail que sabia de sua orientação sexual desde que tinha 16 anos, mas manteve tudo em segredo porque “sabia que nunca seria aceito” no “mais duro e machista dos esportes masculinos”, disse ele. “O rugby era minha paixão, minha vida, e não estava preparado para arriscar a perder o que amava.” E acrescenta: “Isso quase me leva ao suicídio”.
Sua experiência se torna atual porque a marca mais popular de cerveja escura, a Guinness, a escolheu como argumento para seu último anúncio. Já é conhecido que a tendência da moda na publicidade é o storytelling (contar uma história): as empresas se recusam a divulgar os benefícios de seus produtos, agora tudo é relato. Histórias de cervejeiros espanhóis que viajam ao sudeste da Ásia (San Miguel), de músicos de rock que evocam suas primeiras cervejas em Madri (Mahou) ou de jogadores de rugby que estiveram à beira do suicídio por medo de serem proibidos de sentir o prazer de chutar uma bola oval, o que Gareth mais gostava de fazer.
“Eu estava com medo de que todo mundo me virasse as costas”, diz ele no anúncio com cara de quem tirou um peso das costas. Com um estádio vazio no fundo, seu discurso é salpicado por imagens violentas de rugby e suave música de piano. “Eu não conseguia dormir, não conseguia fechar meus olhos, sentia pânico da escuridão”. No final de um jogo em que sentiu que não tinha rendido ao máximo, desabou na frente de seu treinador. “Não conseguia parar de chorar”, lembra. Felizmente, o técnico o apoiou. “Essas pessoas te amam”, disse ele, referindo-se a seus companheiros de equipe. Apesar de tudo, soltar a bomba para eles foi, para Thomas, “a coisa mais difícil que já fiz na minha vida”.
Os maus presságios de Gareth não se cumpriram. Colegas de equipe e fãs apoiaram o jogador de 1,92 metros, no momento que ele mais precisava. “Quero agradecer a todos pela resposta incrível que recebi, em meu nome e no de minha família e amigos”, disse ele dias mais tarde. Robert Norster, presidente dos Cardiff Blues, onde jogava na época, dedicou palavras de elogio a ele: “É uma honra para esta equipe, alguém que contribuiu com honra para esta camiseta como um grande jogador e líder sólido. Sua vida privada só diz respeito a ele”. Isso não evitou que Gareth sofresse anos de angústia por esconder sua sexualidade porque achava que atrapalharia sua carreira.
Se a vida de Thomas serve para vender cervejas, também poderia ser utilizada para vender entradas de cinema. Embora com Mickey Rourke por trás do projeto nunca se sabe. O filme está há quatro anos dando voltas sem que, por enquanto, pareça que vai realmente ver a luz. Agora em 2015 Rourke tentou vendê-lo em Cannes, e fala dele em entrevistas, antecipando pérolas como que, caso ele interprete Thomas, “vai tirar os dentes postiços” para as cenas íntimas. As últimas notícias de Hollywood sugerem que Rourke está pensando, já que nos Estados Unidos a maioria das pessoas não sabe o que é rugby. Os planos de filmagens no País de Gales foram mudados para a Irlanda e a trama, longe de biográfica, seria baseada em um conceito mais amplo da homossexualidade no esporte (o filme poderia ser chamado Irish Thunder – Trovão Irlandês).
Em 19 de fevereiro os sofrimentos de Thomas chegaram ao teatro. Naquele dia estreou em Cardiff (País de Gales) a obra Crouch, touch, pause, engage (as instruções que dá o árbitro de rugby antes da formação inicial das jogadas, conhecida como scrum), baseada em sua vida e escrita sob sua supervisão. Depois da estreia, a obra percorreu o resto do País de Gales e Inglaterra. Aos 41 anos, Thomas, que ainda é conhecido em sua terra natal como Alfie (por sua semelhança com Alf, o personagem da popular série de TV) tornou-se um exemplo de integridade e resistência por seu sofrimento injusto, em um ícone gay (o primeiro grande atleta britânico a sair do armário) e uma celebridade que participa na versão britânica do Big Brother VIP ou posa nu para Attitude, a revista gay na qual falou de seu namorado, Ian Baum, dez anos mais velho: “Sinto que é a peça final do quebra-cabeça”.
Miguel Ángel Bargueño
El Pais

jogadorHomens fortes chocando-se, narizes quebrados, lama. Essa é a ideia que, na Espanha, um país pouco amigo do rugby, podemos ter desse esporte que anima as massas no Reino Unido. Mas para Gareth Thomas, jogador emblemático do País de Gales, o primeiro a jogar 100 partidas por sua seleção, a parte realmente difícil foi ter que manter em segredo que é gay. “A batalha que tive que travar como pessoa foi dez vezes pior que as batalhas no campo. Eu era forte fisicamente, mas mentalmente fraco e com medo”, diz.
Foi no final de 2009 que Thomas (Bridgend, 1974) tornou pública sua homossexualidade. Levando em conta as poucas saídas do armário registradas no esporte, é possível suspeitar que anunciar sua homossexualidade no vestiário de um time de rugby não deve ser fácil. Nesse momento, já no final de sua carreira, Gareth Thomas admitiu ao Daily Mail que sabia de sua orientação sexual desde que tinha 16 anos, mas manteve tudo em segredo porque “sabia que nunca seria aceito” no “mais duro e machista dos esportes masculinos”, disse ele. “O rugby era minha paixão, minha vida, e não estava preparado para arriscar a perder o que amava.” E acrescenta: “Isso quase me leva ao suicídio”.
Sua experiência se torna atual porque a marca mais popular de cerveja escura, a Guinness, a escolheu como argumento para seu último anúncio. Já é conhecido que a tendência da moda na publicidade é o storytelling (contar uma história): as empresas se recusam a divulgar os benefícios de seus produtos, agora tudo é relato. Histórias de cervejeiros espanhóis que viajam ao sudeste da Ásia (San Miguel), de músicos de rock que evocam suas primeiras cervejas em Madri (Mahou) ou de jogadores de rugby que estiveram à beira do suicídio por medo de serem proibidos de sentir o prazer de chutar uma bola oval, o que Gareth mais gostava de fazer.
“Eu estava com medo de que todo mundo me virasse as costas”, diz ele no anúncio com cara de quem tirou um peso das costas. Com um estádio vazio no fundo, seu discurso é salpicado por imagens violentas de rugby e suave música de piano. “Eu não conseguia dormir, não conseguia fechar meus olhos, sentia pânico da escuridão”. No final de um jogo em que sentiu que não tinha rendido ao máximo, desabou na frente de seu treinador. “Não conseguia parar de chorar”, lembra. Felizmente, o técnico o apoiou. “Essas pessoas te amam”, disse ele, referindo-se a seus companheiros de equipe. Apesar de tudo, soltar a bomba para eles foi, para Thomas, “a coisa mais difícil que já fiz na minha vida”.
Os maus presságios de Gareth não se cumpriram. Colegas de equipe e fãs apoiaram o jogador de 1,92 metros, no momento que ele mais precisava. “Quero agradecer a todos pela resposta incrível que recebi, em meu nome e no de minha família e amigos”, disse ele dias mais tarde. Robert Norster, presidente dos Cardiff Blues, onde jogava na época, dedicou palavras de elogio a ele: “É uma honra para esta equipe, alguém que contribuiu com honra para esta camiseta como um grande jogador e líder sólido. Sua vida privada só diz respeito a ele”. Isso não evitou que Gareth sofresse anos de angústia por esconder sua sexualidade porque achava que atrapalharia sua carreira.
Se a vida de Thomas serve para vender cervejas, também poderia ser utilizada para vender entradas de cinema. Embora com Mickey Rourke por trás do projeto nunca se sabe. O filme está há quatro anos dando voltas sem que, por enquanto, pareça que vai realmente ver a luz. Agora em 2015 Rourke tentou vendê-lo em Cannes, e fala dele em entrevistas, antecipando pérolas como que, caso ele interprete Thomas, “vai tirar os dentes postiços” para as cenas íntimas. As últimas notícias de Hollywood sugerem que Rourke está pensando, já que nos Estados Unidos a maioria das pessoas não sabe o que é rugby. Os planos de filmagens no País de Gales foram mudados para a Irlanda e a trama, longe de biográfica, seria baseada em um conceito mais amplo da homossexualidade no esporte (o filme poderia ser chamado Irish Thunder – Trovão Irlandês).
Em 19 de fevereiro os sofrimentos de Thomas chegaram ao teatro. Naquele dia estreou em Cardiff (País de Gales) a obra Crouch, touch, pause, engage (as instruções que dá o árbitro de rugby antes da formação inicial das jogadas, conhecida como scrum), baseada em sua vida e escrita sob sua supervisão. Depois da estreia, a obra percorreu o resto do País de Gales e Inglaterra. Aos 41 anos, Thomas, que ainda é conhecido em sua terra natal como Alfie (por sua semelhança com Alf, o personagem da popular série de TV) tornou-se um exemplo de integridade e resistência por seu sofrimento injusto, em um ícone gay (o primeiro grande atleta britânico a sair do armário) e uma celebridade que participa na versão britânica do Big Brother VIP ou posa nu para Attitude, a revista gay na qual falou de seu namorado, Ian Baum, dez anos mais velho: “Sinto que é a peça final do quebra-cabeça”.
Miguel Ángel Bargueño
El Pais