OFERENDA QUE O MAR NÃO QUIS

Até hoje eu não sei se casamento é benção ou maldição, eu podia ter casado com Gertrudes, mas me casei com Mafalda, acho que foi praga de mãe.
No começo era uma beleza, eu estava me sentindo o Caetano Veloso, era tudo divino e maravilhoso, ela me trazia os chinelos, apertava meus cravos, perguntava se eu não queria ir jogar bola com os amigos, é claro que eu nunca ia, eu era um perna de pau, não servia nem pra gandula. E muitas outras coisas que ela fazia e eu gostava e ela tinha prazer em fazer, até me apresentava suas amigas gostosas, sem sentir ciúmes.
Mas o tempo foi passando e a rotina como sempre metendo o bedelho na vida dos casais e assim foi com a gente.
Eu fui ficando barrigudo e relaxado, ela foi ficando pançuda e desleixada, se eu quisesse meus chinelos, eu mesmo teria que ir buscar e ficava xingando ela, se eu deixava a toalha molhada em cima da cama, era ela quem me xingava, ela já não era mais a mesma e eu tinha piorado e muito.
Com o passar dos anos eu fui percebendo que as brigas e xingamentos não resolviam nada, então me policiei, só que ela se esqueceu de parar pra perceber o mesmo e continuou com seu mau humor infernal.
Cheguei ao ponto de pensar em dar uma facãozada no pescoço dela e expor sua cabeça, igual fizeram os macacos com o Lampião (calma gente! foi só um pensamento na hora da raiva, eu não ia ter coragem pra isso não ).
Uma vez eu fui embora de casa, me lasquei todo, não sabia cozinhar um feijão, fritar um ovo, pra lavar minhas cuecas era uma negação, as freadas de bicicleta ficavam do mesmo jeito.
Voltei pra casa com o rabo no meio das pernas, pedindo perdão, dizendo que a amava e o escambáu.
Final de dezembro, la vamos nós pra praia, areia cheia de flores, um monte de gente mandando barquinhos com flores, doces e velas pro meio do mar em troca pedindo graças à rainha dos mares, mãe dos orixás, nosso barquinho também estava lá.
De repente eu tive uma ideia genial, aluguei uma prancha e convenci a dona da pensão que ela seria uma ótima surfista, ela acreditou.
E la foi ela nadando rumo ao alto mar, se achando uma sereia, eu fiz de conta que tinha esquecido de falar pra ela amarrar a cordinha da prancha no tornozelo, mas ela é uma ótima nadadora, nos corguinhos lá do bairro não tinha pra ninguém.
De repente, la vem ela, rolando por cima das ondas, feito uma bola, parecia aquelas bolas de arbusto dos filmes de faroeste.
E ainda vinha gritando….hiurruuuuu! toda feliz, como se estivesse na montanha russa da Disney, feito pinto no lixo, então finalmente, chegou na praia, rolando na areia, parecendo um bife de casquinha.
A prancha morreu afogada, mas ela ficou vivinha da Silva e ainda me perguntou….me sai bem?

Valdir Fachini
valdirfachini53@gmail.com

Até hoje eu não sei se casamento é benção ou maldição, eu podia ter casado com Gertrudes, mas me casei com Mafalda, acho que foi praga de mãe.
No começo era uma beleza, eu estava me sentindo o Caetano Veloso, era tudo divino e maravilhoso, ela me trazia os chinelos, apertava meus cravos, perguntava se eu não queria ir jogar bola com os amigos, é claro que eu nunca ia, eu era um perna de pau, não servia nem pra gandula. E muitas outras coisas que ela fazia e eu gostava e ela tinha prazer em fazer, até me apresentava suas amigas gostosas, sem sentir ciúmes.
Mas o tempo foi passando e a rotina como sempre metendo o bedelho na vida dos casais e assim foi com a gente.
Eu fui ficando barrigudo e relaxado, ela foi ficando pançuda e desleixada, se eu quisesse meus chinelos, eu mesmo teria que ir buscar e ficava xingando ela, se eu deixava a toalha molhada em cima da cama, era ela quem me xingava, ela já não era mais a mesma e eu tinha piorado e muito.
Com o passar dos anos eu fui percebendo que as brigas e xingamentos não resolviam nada, então me policiei, só que ela se esqueceu de parar pra perceber o mesmo e continuou com seu mau humor infernal.
Cheguei ao ponto de pensar em dar uma facãozada no pescoço dela e expor sua cabeça, igual fizeram os macacos com o Lampião (calma gente! foi só um pensamento na hora da raiva, eu não ia ter coragem pra isso não ).
Uma vez eu fui embora de casa, me lasquei todo, não sabia cozinhar um feijão, fritar um ovo, pra lavar minhas cuecas era uma negação, as freadas de bicicleta ficavam do mesmo jeito.
Voltei pra casa com o rabo no meio das pernas, pedindo perdão, dizendo que a amava e o escambáu.
Final de dezembro, la vamos nós pra praia, areia cheia de flores, um monte de gente mandando barquinhos com flores, doces e velas pro meio do mar em troca pedindo graças à rainha dos mares, mãe dos orixás, nosso barquinho também estava lá.
De repente eu tive uma ideia genial, aluguei uma prancha e convenci a dona da pensão que ela seria uma ótima surfista, ela acreditou.
E la foi ela nadando rumo ao alto mar, se achando uma sereia, eu fiz de conta que tinha esquecido de falar pra ela amarrar a cordinha da prancha no tornozelo, mas ela é uma ótima nadadora, nos corguinhos lá do bairro não tinha pra ninguém.
De repente, la vem ela, rolando por cima das ondas, feito uma bola, parecia aquelas bolas de arbusto dos filmes de faroeste.
E ainda vinha gritando….hiurruuuuu! toda feliz, como se estivesse na montanha russa da Disney, feito pinto no lixo, então finalmente, chegou na praia, rolando na areia, parecendo um bife de casquinha.
A prancha morreu afogada, mas ela ficou vivinha da Silva e ainda me perguntou….me sai bem?

Valdir Fachini
valdirfachini53@gmail.com