Presente delicado

birdSua pequena casa era rodeada por árvores, flores e um gramado muito bem cuidado.
“Por que você não aumenta essa casa?”
“Tanto terreno só pra te dar trabalho.”
“Aqui daria para construir uma piscina, ali uma quadra, logo mais ali na frente um parquinho. Não entendo alguém com tanto terreno e uma casa tão pequenininha, sem nada a sua volta.”
As pessoas têm a incrível mania de se meterem onde não são chamadas.
Dar sugestões a quem não pediu, opinarem sobre o que ninguém quer saber.
Incrível isso.
Todo mundo parecia saber muito bem o que Ela devia fazer com aquilo que era só seu.
Tolinhos.
Pitaqueiros de plantão nada sabiam.
Ela sim conhecia as agruras e alegrias de viver em uma casinha tão pequena, rodeada por um espaço tão amplo com tantas árvores, flores e frutos.
Só ela e o Sr. Antônio, o fiel escudeiro do seu reino encantado, conheciam os segredos daquelas árvores e seus moradores secretos.
Ali com ela, moravam passarinhos de várias espécies que construíam seus ninhos, chocavam seus ovinhos, criavam seus filhotes ao alcance de seus olhos encantados.
Eram tantos e tão coloridos que o espetáculo de cada manhã tornava-se praticamente imperdível.
Eram eles que convenciam o sol a se levantar a cada manhã.
Só podia.
Acordavam muito antes dele e punham-se a cantar.
Cantar alto, sem economizar nada de seus ”pulmõezinhos”.
Começavam aos poucos, parecia que um ia acordando o outro.
De repente, era uma conversaria tão grande, uma cantoria tão animada, que nem o sol resistia: vinha chegando de mansinho também para coroar a festa.
Quando a festa animada e o sol se juntavam, era impossível continuar dormindo.
Quem estava há horas na cama era convidado com tanta insistência que acabava tendo de se levantar também.
Mas, um dia, Ela decidiu que acordar junto com os passarinhos era pouco, precisava aproveitar mais as manhãs, acordar ainda mais cedo.
Mas como?
Achava injusto usar despertador quando tinha cantores que a acordavam lindamente.
Mas agora inventara de acordar antes deles e não via outra solução.
Dormiu pensando nisso, conversando com o Criador sobre o assunto.
No outro dia, antes que qualquer passarinho começasse a cantar, pensou ter ouvido uma leve batida na janela:
“Tuc, tuc, tuc.”
Seguido de um canto diferente, suave, doce.
“Tuc, tuc, tuc.”
O toque parecia ser feito por uma pessoa.
Ela até se assustou.
Mas, depois, ouviu novamente o canto.
Lembrou-se do seu pedido antes de dormir.
Levantou e foi até a janela.
Chegou devagarzinho, a tempo de ver um passarinho bem pequeno batendo de leve o bico contra o vidro.
Ela abriu a janela de leve e ele voou.
Pousou no galho mais próximo, cantou novamente a mesma melodia que ela ouvira ainda na cama e foi embora.
Ela ficou parada ali, olhando boquiaberta a escuridão que a rodeava.
Não se ouvia qualquer outro som além das folhas que conversavam com o vento.
Esse fora o primeiro passarinho a acordar naquela manhã.
Antes que qualquer um se levantasse, ele fora ser o seu despertador.
E não só aquele dia.
Aquele foi o primeiro do que passou a ser um ritual: muito antes de os outros cantarem, lá estava ele para que Ela pudesse acordar antes, fazer seu dia render.
Um presente delicado todas as manhãs.
Presente para quem escolheu morar perto de quem é feliz desde antes do sol chegar.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

birdSua pequena casa era rodeada por árvores, flores e um gramado muito bem cuidado.
“Por que você não aumenta essa casa?”
“Tanto terreno só pra te dar trabalho.”
“Aqui daria para construir uma piscina, ali uma quadra, logo mais ali na frente um parquinho. Não entendo alguém com tanto terreno e uma casa tão pequenininha, sem nada a sua volta.”
As pessoas têm a incrível mania de se meterem onde não são chamadas.
Dar sugestões a quem não pediu, opinarem sobre o que ninguém quer saber.
Incrível isso.
Todo mundo parecia saber muito bem o que Ela devia fazer com aquilo que era só seu.
Tolinhos.
Pitaqueiros de plantão nada sabiam.
Ela sim conhecia as agruras e alegrias de viver em uma casinha tão pequena, rodeada por um espaço tão amplo com tantas árvores, flores e frutos.
Só ela e o Sr. Antônio, o fiel escudeiro do seu reino encantado, conheciam os segredos daquelas árvores e seus moradores secretos.
Ali com ela, moravam passarinhos de várias espécies que construíam seus ninhos, chocavam seus ovinhos, criavam seus filhotes ao alcance de seus olhos encantados.
Eram tantos e tão coloridos que o espetáculo de cada manhã tornava-se praticamente imperdível.
Eram eles que convenciam o sol a se levantar a cada manhã.
Só podia.
Acordavam muito antes dele e punham-se a cantar.
Cantar alto, sem economizar nada de seus ”pulmõezinhos”.
Começavam aos poucos, parecia que um ia acordando o outro.
De repente, era uma conversaria tão grande, uma cantoria tão animada, que nem o sol resistia: vinha chegando de mansinho também para coroar a festa.
Quando a festa animada e o sol se juntavam, era impossível continuar dormindo.
Quem estava há horas na cama era convidado com tanta insistência que acabava tendo de se levantar também.
Mas, um dia, Ela decidiu que acordar junto com os passarinhos era pouco, precisava aproveitar mais as manhãs, acordar ainda mais cedo.
Mas como?
Achava injusto usar despertador quando tinha cantores que a acordavam lindamente.
Mas agora inventara de acordar antes deles e não via outra solução.
Dormiu pensando nisso, conversando com o Criador sobre o assunto.
No outro dia, antes que qualquer passarinho começasse a cantar, pensou ter ouvido uma leve batida na janela:
“Tuc, tuc, tuc.”
Seguido de um canto diferente, suave, doce.
“Tuc, tuc, tuc.”
O toque parecia ser feito por uma pessoa.
Ela até se assustou.
Mas, depois, ouviu novamente o canto.
Lembrou-se do seu pedido antes de dormir.
Levantou e foi até a janela.
Chegou devagarzinho, a tempo de ver um passarinho bem pequeno batendo de leve o bico contra o vidro.
Ela abriu a janela de leve e ele voou.
Pousou no galho mais próximo, cantou novamente a mesma melodia que ela ouvira ainda na cama e foi embora.
Ela ficou parada ali, olhando boquiaberta a escuridão que a rodeava.
Não se ouvia qualquer outro som além das folhas que conversavam com o vento.
Esse fora o primeiro passarinho a acordar naquela manhã.
Antes que qualquer um se levantasse, ele fora ser o seu despertador.
E não só aquele dia.
Aquele foi o primeiro do que passou a ser um ritual: muito antes de os outros cantarem, lá estava ele para que Ela pudesse acordar antes, fazer seu dia render.
Um presente delicado todas as manhãs.
Presente para quem escolheu morar perto de quem é feliz desde antes do sol chegar.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br