Indígena e filha passam em cursos de engenharia no Ceará

paiEfilhaO faxineiro João Monte Rodrigues realizou neste início de ano o antigo sonho de estudar em uma universidade. Sonho que surgiu, segundo ele, ainda quando era criança e trabalhava com o pai no roçado em uma comunidade indígena, no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ele estudou com a filha nas madrugadas e os dois foram aprovados em cursos da área de engenharia.
João, 52 anos, e a filha Ester Ferreira Rodrigues, 17, conseguiram pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2017 e conseguiram ingressar na Universidade Federal do Ceará (UFC) neste semestre. Ele no curso de Engenharia de Petróleo, e ela, Engenharia Ambiental. A família mora em uma comunidade indígena em Caucaia, a 4 km de Fortaleza.
O sonho de entrar na universidade foi adiado, segundo João, pelos imprevistos da vida. Ele conta que devido as condições financeiras e por morar longe da capital não teve como manter os estudos. Na adolescência, teve que arrumar emprego para se manter e isso atrapalhou ainda mais realizar o desejo de entrar em uma faculdade.
“Foi um sonho que eu tinha desde criança. Quando eu ainda trabalhava com meu pai na roça. Parei de estudar cedo. Foi no ano de 1979. Cursei até a 5ª série, e devido às dificuldades, não tive como me matricular em um colégio particular”.
Mesmo muito pobre, o pai conseguiu recursos para colocar o filho em um colégio particular em Fortaleza. Mas, não por muito tempo.
“Meu pai ainda conseguiu não sei como um dinheiro e me matriculou em uma escola. No entanto, tive que sair. Esse sonho estava apenas silencioso dentro de mim. Acordou quando eu vi minha filha Ester estudando. Aí, a partir de então, decidimos estudar juntos”, conta.

Jornada dura e estudos
João Monte relata as dificuldades com emoção. A jornada de trabalho dele começa 5 horas e termina 18h. Após chegar em casa, ele conta que tomava um banho rápido e ia direto para a Escola de Ensino Médio José Alexandre onde concluía o ensino médio. Ao voltar, jantava e ia se juntar a Ester, estudando madrugada adentro.
“Não tive como largar o emprego. Sou casado e tenho dois filhos. Uma jornada de trabalho de mais de dez horas. Mesmo cansado, eu tomava um banho quando chegava em casa e saía logo para as aulas. Quando chegava tarde da noite comia alguma coisa e ia estudar com minha filha. Um ajudando o outro. Essa rotina durou três anos e deu resultado”, conta.
Ele conseguiu uma lousa e improvisou uma sala de estudos em casa. Ela tirava as dúvidas de português com Ester e ajudava a filha em matemática.
A filha conta que está ansiosa em ver o pai junto com ela em uma sala de aula. As aulas já começaram, mas eles só devem comparecer à universidade na segunda-feira (5) e a parceria deve ficar mais forte do que nunca.
“As aulas já começaram, porém vamos iniciar somente na segunda-feira. As minhas expectativas são as melhores possíveis visto que eu comecei estudando com o meu pai, passamos juntos e vamos estudar algumas matérias juntos. As duas áreas são de engenharia. Então a parceria vai continuar forte e estudaremos juntos”, diz entusiasmada.
Ester fala também do orgulho de ter passado logo de primeira na companhia do pai. “Foi na primeira tentativa. Faziamos o Enem somente para testar nossos conhecimentos. Entrar na primeira tentativa foi algo especial”, diz.

Exemplo de perseverança
O professor Francisco Bartolomeu Alves de Paula, diretor da Escola de Ensino Médio José Alexandre, local onde João terminou seus estudos, diz que o futuro engenheiro é um exemplo de perseverança e humildade. Bartolomeu conta que João desde o início estava determinado que passaria.
“Ele é um exemplo de luta. Casou e teve que abandonar os estudos. Mesmo assim não desistiu e estudou e agora vai realizar o sonho de entrar em uma respeitada universidade. Sempre participava dos debates e era assíduo as aulas de redação. Eu como diretor estou orgulhoso dele e nesses 30 anos de profissão o caso dele é difícil de presenciar. Ele ressurgiu”, comenta.

Família de engenheiros
João ressalta que o filho, João Paulo de 14 anos, também pretende seguir a área de engenharia. Quer ser engenheiro civil. No momento, ele cursa o último ano do fundamental. E para completar a lista, a esposa, Simone Rodrigues ficou tão entusiasmada com o sucesso do marido e da filha que vai tentar engenharia de alimentos.
“Meu filho mais novo quer prestar para a engenharia. Ele já está com ideia fixa na cabeça que quer ser engenheiro. Vai ser mais um orgulho na família. Minha esposa quer voltar a estudar. Vai tentar engenharia de alimentos. No que os dois precisarem de mim podem contar”, afirmou orgulhoso.
João dedica a conquista aos pais, agricultores, que já faleceram. “Na enxada pequena com seis anos capinava e ele falava para mim que seria um doutor. Até pouco antes de morrer ele repetia isso. Minha mãe, Maria Cordeiro Gonzaga, também já falecida, pedia para não desistir. Eles não estão mais aqui. Não desisti e dedico essa conquista também para os meus pais”.
G1

paiEfilhaO faxineiro João Monte Rodrigues realizou neste início de ano o antigo sonho de estudar em uma universidade. Sonho que surgiu, segundo ele, ainda quando era criança e trabalhava com o pai no roçado em uma comunidade indígena, no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ele estudou com a filha nas madrugadas e os dois foram aprovados em cursos da área de engenharia.
João, 52 anos, e a filha Ester Ferreira Rodrigues, 17, conseguiram pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2017 e conseguiram ingressar na Universidade Federal do Ceará (UFC) neste semestre. Ele no curso de Engenharia de Petróleo, e ela, Engenharia Ambiental. A família mora em uma comunidade indígena em Caucaia, a 4 km de Fortaleza.
O sonho de entrar na universidade foi adiado, segundo João, pelos imprevistos da vida. Ele conta que devido as condições financeiras e por morar longe da capital não teve como manter os estudos. Na adolescência, teve que arrumar emprego para se manter e isso atrapalhou ainda mais realizar o desejo de entrar em uma faculdade.
“Foi um sonho que eu tinha desde criança. Quando eu ainda trabalhava com meu pai na roça. Parei de estudar cedo. Foi no ano de 1979. Cursei até a 5ª série, e devido às dificuldades, não tive como me matricular em um colégio particular”.
Mesmo muito pobre, o pai conseguiu recursos para colocar o filho em um colégio particular em Fortaleza. Mas, não por muito tempo.
“Meu pai ainda conseguiu não sei como um dinheiro e me matriculou em uma escola. No entanto, tive que sair. Esse sonho estava apenas silencioso dentro de mim. Acordou quando eu vi minha filha Ester estudando. Aí, a partir de então, decidimos estudar juntos”, conta.

Jornada dura e estudos
João Monte relata as dificuldades com emoção. A jornada de trabalho dele começa 5 horas e termina 18h. Após chegar em casa, ele conta que tomava um banho rápido e ia direto para a Escola de Ensino Médio José Alexandre onde concluía o ensino médio. Ao voltar, jantava e ia se juntar a Ester, estudando madrugada adentro.
“Não tive como largar o emprego. Sou casado e tenho dois filhos. Uma jornada de trabalho de mais de dez horas. Mesmo cansado, eu tomava um banho quando chegava em casa e saía logo para as aulas. Quando chegava tarde da noite comia alguma coisa e ia estudar com minha filha. Um ajudando o outro. Essa rotina durou três anos e deu resultado”, conta.
Ele conseguiu uma lousa e improvisou uma sala de estudos em casa. Ela tirava as dúvidas de português com Ester e ajudava a filha em matemática.
A filha conta que está ansiosa em ver o pai junto com ela em uma sala de aula. As aulas já começaram, mas eles só devem comparecer à universidade na segunda-feira (5) e a parceria deve ficar mais forte do que nunca.
“As aulas já começaram, porém vamos iniciar somente na segunda-feira. As minhas expectativas são as melhores possíveis visto que eu comecei estudando com o meu pai, passamos juntos e vamos estudar algumas matérias juntos. As duas áreas são de engenharia. Então a parceria vai continuar forte e estudaremos juntos”, diz entusiasmada.
Ester fala também do orgulho de ter passado logo de primeira na companhia do pai. “Foi na primeira tentativa. Faziamos o Enem somente para testar nossos conhecimentos. Entrar na primeira tentativa foi algo especial”, diz.

Exemplo de perseverança
O professor Francisco Bartolomeu Alves de Paula, diretor da Escola de Ensino Médio José Alexandre, local onde João terminou seus estudos, diz que o futuro engenheiro é um exemplo de perseverança e humildade. Bartolomeu conta que João desde o início estava determinado que passaria.
“Ele é um exemplo de luta. Casou e teve que abandonar os estudos. Mesmo assim não desistiu e estudou e agora vai realizar o sonho de entrar em uma respeitada universidade. Sempre participava dos debates e era assíduo as aulas de redação. Eu como diretor estou orgulhoso dele e nesses 30 anos de profissão o caso dele é difícil de presenciar. Ele ressurgiu”, comenta.

Família de engenheiros
João ressalta que o filho, João Paulo de 14 anos, também pretende seguir a área de engenharia. Quer ser engenheiro civil. No momento, ele cursa o último ano do fundamental. E para completar a lista, a esposa, Simone Rodrigues ficou tão entusiasmada com o sucesso do marido e da filha que vai tentar engenharia de alimentos.
“Meu filho mais novo quer prestar para a engenharia. Ele já está com ideia fixa na cabeça que quer ser engenheiro. Vai ser mais um orgulho na família. Minha esposa quer voltar a estudar. Vai tentar engenharia de alimentos. No que os dois precisarem de mim podem contar”, afirmou orgulhoso.
João dedica a conquista aos pais, agricultores, que já faleceram. “Na enxada pequena com seis anos capinava e ele falava para mim que seria um doutor. Até pouco antes de morrer ele repetia isso. Minha mãe, Maria Cordeiro Gonzaga, também já falecida, pedia para não desistir. Eles não estão mais aqui. Não desisti e dedico essa conquista também para os meus pais”.
G1