Teste de amor

sorveteNada como ser tratado com amor.

A gente ouve direto histórias incríveis de como o amor transforma a vida das pessoas.

Sejam elas crianças pequenas, adolescentes donos do mundo ou adultos deprimidos.

Não há aquele que, ao ser tratado com amor, não tenha a vida transformada.

Ao ler as histórias dessas transformações, fico maravilhada com o poder que ele, o amor tem, e mais encantada ainda me torno ao me deparar com o comportamento assumido por quem decide amar.

Misericórdia!

É muita paciência, altruísmo, resignação.

É amor prático demais.

Porque amor é prática, né?

Amor é ação, é mão na massa.

E, quando alguém decide amar aquele que nunca recebeu essa poção transformadora com todos os seus nuances e desafios, tem de estar pronto para tudo.

Eles se conheceram no meio da rua.

Estava uma tarde quente com aquele calor que parecia fazer apenas naquela cidade e mais em nenhum outro lugar na Terra.

Ela tomando o maior sorvete que encontrara no cardápio.

Ele sentado na calçada apreciando aquele espetáculo.

Foi quando, entre uma e outra olhada no celular, Ela viu o menino sentado no chão.

Descalço, sujo até não mais poder, parecia encantado com o que a via saborear.

Ela ficou um pouco constrangida com a posição que ocupava, afinal, estava sendo admirada enquanto comia.

Olhou no relógio e viu que tinha um tempo.

Sem olhar para os lados, pegou o cardápio e quando viu já estava sentada na calçada ao lado do Menino, mostrando a ele aquele mundo de opções:

“E, aí, vai querer qual?”

Ele se assustou.

Claro, não era todo dia que ele tinha a dona do objeto de seu desejo sentada ao seu lado, e ainda mais na calçada.

– Não, dona, quero nada não senhora.

Ela abriu o olho maior que podia, sinceramente assustada:

“Poxa vida, eu aqui tomando sorvete sozinha, precisando de uma companhia e você não quer sentar comigo? Tomar um sorvete também? Vamos lá, senta comigo, escolhe um sorvete.”

Ele, que era tímido, mas não era bobo, pegou o cardápio e, enquanto olhava admirado, imaginava qual seria o mais o gostoso:

– Posso escolher qualquer um?

Ela não se conteve, tinha que rir:

“Qualquer um.”

Eles levantaram da calçada e foram para a mesa.

E, como em um passe de mágicas, apareceu em frente ao Menino o maior sorvete que eles montavam ali.

E ele comeu, saboreando cada colherada.

Lá pelas tantas, quando já sabiam muito da vida um do outro ele perguntou:

– Você não vai tirar uma fotografia comigo?

“Não, por quê?”

– Todo mundo que me dá alguma coisa tira fotografia e coloca no Facebook, Instagram, pra mostrar para os amigos o quanto é boa gente. Sabe como é, dar sorvete a menino que mora na rua, tem bom coração. Isso ajuda as pessoas a se promoveram.

Ela riu.

“Eu não gosto de me promover. O que a gente faz, come ou deixa de fazer ou comer é segredo nosso.”

Eles conversaram e gargalharam até terminarem a última colherada gelada.

Beberam água, apertaram as mãos e marcaram um novo encontro, na próxima semana no mesmo lugar.

E, na próxima semana, por mais que um acreditasse que o outro não iria, os dois foram.

E, assim, aquele encontro no meio da semana, encaixado caprichosamente no meio da tarde, foi se tornando um ritual.

Nesse ritual semanal, eles conversavam sobre tudo, brigavam, discutiam, riam e choravam.

Um foi se tornando para o outro o ombro amigo de que precisavam.

Sem pedir nada, sem exigir qualquer coisa.

Um dia, o Menino chegou e estendeu a Ela o cardápio:

– Pode escolher o que quiser.

Ela achou estranho, nos últimos meses não havia o que discutir quem sempre falava essa frase era ela.

“O que é isso, Menino? Essa fala é minha!”

– Eu sei, mas, hoje, quem fala isso sou eu.

Ela riu mais um pouco e escolheu o sorvete mais barato que havia no cardápio.

Ele indignou-se:

“Poxa vida, desse jeito você me ofende! Quando você me convida, eu escolho o que quero e você paga sem reclamar. Quando é minha vez de pagar, você escolhe o mais barato de todos?”

– Mas Menino – falou ela sem graça – esse dinheiro você leva pra sua mãe pra ajudar em casa, não é pra ficar me dando sorvete.

Ele, contrariado foi lá e escolheu o sorvete preferido da moça.

“Eu já te conheço, posso escolher sozinho o seu sorvete.”

Eles tomaram tudo como sempre e, ao final, quando o Menino satisfeito pagou a conta, disse a Ela:

– Você foi a primeira pessoa que parou para me escutar na vida. Nunca antes, alguém tinha me dado atenção, perguntado sobre meus planos, mostrado pra mim que até eu posso ter um futuro melhor. Eu nunca tinha recebido tanto amor e tomado tanto sorvete. Esse sorvete é só para te agradecer.

Ela sorriu com lágrimas nos olhos e passando a mão na cabeça do Menino:

“Vamos ali, eu preciso te levar a um lugar.”

E os dois saíram andando lado a lado.

Iria começar uma nova fase naquela amizade, onde o amor ao próximo seria colocado a prova.

Provado enquanto fosse, testado enquanto voltasse.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no http://www.viviantunes.com.b

sorveteNada como ser tratado com amor.

A gente ouve direto histórias incríveis de como o amor transforma a vida das pessoas.

Sejam elas crianças pequenas, adolescentes donos do mundo ou adultos deprimidos.

Não há aquele que, ao ser tratado com amor, não tenha a vida transformada.

Ao ler as histórias dessas transformações, fico maravilhada com o poder que ele, o amor tem, e mais encantada ainda me torno ao me deparar com o comportamento assumido por quem decide amar.

Misericórdia!

É muita paciência, altruísmo, resignação.

É amor prático demais.

Porque amor é prática, né?

Amor é ação, é mão na massa.

E, quando alguém decide amar aquele que nunca recebeu essa poção transformadora com todos os seus nuances e desafios, tem de estar pronto para tudo.

Eles se conheceram no meio da rua.

Estava uma tarde quente com aquele calor que parecia fazer apenas naquela cidade e mais em nenhum outro lugar na Terra.

Ela tomando o maior sorvete que encontrara no cardápio.

Ele sentado na calçada apreciando aquele espetáculo.

Foi quando, entre uma e outra olhada no celular, Ela viu o menino sentado no chão.

Descalço, sujo até não mais poder, parecia encantado com o que a via saborear.

Ela ficou um pouco constrangida com a posição que ocupava, afinal, estava sendo admirada enquanto comia.

Olhou no relógio e viu que tinha um tempo.

Sem olhar para os lados, pegou o cardápio e quando viu já estava sentada na calçada ao lado do Menino, mostrando a ele aquele mundo de opções:

“E, aí, vai querer qual?”

Ele se assustou.

Claro, não era todo dia que ele tinha a dona do objeto de seu desejo sentada ao seu lado, e ainda mais na calçada.

– Não, dona, quero nada não senhora.

Ela abriu o olho maior que podia, sinceramente assustada:

“Poxa vida, eu aqui tomando sorvete sozinha, precisando de uma companhia e você não quer sentar comigo? Tomar um sorvete também? Vamos lá, senta comigo, escolhe um sorvete.”

Ele, que era tímido, mas não era bobo, pegou o cardápio e, enquanto olhava admirado, imaginava qual seria o mais o gostoso:

– Posso escolher qualquer um?

Ela não se conteve, tinha que rir:

“Qualquer um.”

Eles levantaram da calçada e foram para a mesa.

E, como em um passe de mágicas, apareceu em frente ao Menino o maior sorvete que eles montavam ali.

E ele comeu, saboreando cada colherada.

Lá pelas tantas, quando já sabiam muito da vida um do outro ele perguntou:

– Você não vai tirar uma fotografia comigo?

“Não, por quê?”

– Todo mundo que me dá alguma coisa tira fotografia e coloca no Facebook, Instagram, pra mostrar para os amigos o quanto é boa gente. Sabe como é, dar sorvete a menino que mora na rua, tem bom coração. Isso ajuda as pessoas a se promoveram.

Ela riu.

“Eu não gosto de me promover. O que a gente faz, come ou deixa de fazer ou comer é segredo nosso.”

Eles conversaram e gargalharam até terminarem a última colherada gelada.

Beberam água, apertaram as mãos e marcaram um novo encontro, na próxima semana no mesmo lugar.

E, na próxima semana, por mais que um acreditasse que o outro não iria, os dois foram.

E, assim, aquele encontro no meio da semana, encaixado caprichosamente no meio da tarde, foi se tornando um ritual.

Nesse ritual semanal, eles conversavam sobre tudo, brigavam, discutiam, riam e choravam.

Um foi se tornando para o outro o ombro amigo de que precisavam.

Sem pedir nada, sem exigir qualquer coisa.

Um dia, o Menino chegou e estendeu a Ela o cardápio:

– Pode escolher o que quiser.

Ela achou estranho, nos últimos meses não havia o que discutir quem sempre falava essa frase era ela.

“O que é isso, Menino? Essa fala é minha!”

– Eu sei, mas, hoje, quem fala isso sou eu.

Ela riu mais um pouco e escolheu o sorvete mais barato que havia no cardápio.

Ele indignou-se:

“Poxa vida, desse jeito você me ofende! Quando você me convida, eu escolho o que quero e você paga sem reclamar. Quando é minha vez de pagar, você escolhe o mais barato de todos?”

– Mas Menino – falou ela sem graça – esse dinheiro você leva pra sua mãe pra ajudar em casa, não é pra ficar me dando sorvete.

Ele, contrariado foi lá e escolheu o sorvete preferido da moça.

“Eu já te conheço, posso escolher sozinho o seu sorvete.”

Eles tomaram tudo como sempre e, ao final, quando o Menino satisfeito pagou a conta, disse a Ela:

– Você foi a primeira pessoa que parou para me escutar na vida. Nunca antes, alguém tinha me dado atenção, perguntado sobre meus planos, mostrado pra mim que até eu posso ter um futuro melhor. Eu nunca tinha recebido tanto amor e tomado tanto sorvete. Esse sorvete é só para te agradecer.

Ela sorriu com lágrimas nos olhos e passando a mão na cabeça do Menino:

“Vamos ali, eu preciso te levar a um lugar.”

E os dois saíram andando lado a lado.

Iria começar uma nova fase naquela amizade, onde o amor ao próximo seria colocado a prova.

Provado enquanto fosse, testado enquanto voltasse.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no http://www.viviantunes.com.b