Esperança

esperancaNada mais agradável do que escutar exatamente o que se quer.
E Ele sabia falar o que muitos queriam ouvir.
Com desenvoltura, alegria, vocabulário fácil e envolvente, conseguia fazer com que muitos parassem e prestassem atenção a suas ideias.
Logo percebeu que as pessoas gostavam do que dizia.
Onde quisesse falar, havia sempre alguém disposto a ouvir.
Conforme isso foi acontecendo, Ele começou a se acostumar com a situação.
A gostar dela.
Alguns discordavam, claro, mas, quando isso acontecia, com habilidade e apoio dos que estavam a sua volta, conseguia convencer o outro de que, sim, estava certo.
Ou então, quando não era convencida, a pessoa era discretamente eliminada do grupo.
Colocada em um canto, rapidamente esquecida.
Com o passar do tempo, o número daqueles que apoiavam o que dizia foi aumentando consideravelmente.
Foi aí que Ele teve uma ideia:
“Posso ser o representante de vocês, posso ser a voz de cada um junto a esses que nos fazem sofrer.”
As pessoas gostaram.
Acharam que seriam muito bem representadas por Ele.
Com o tempo, muitos outros ficaram sabendo que aqueles que Ele representava conseguiam ser ouvidos, atendidos.
– Você não pode privilegiar só esses. Venha nos representar também!
E Ele foi.
Cada dia, conseguia atingir mais e mais pessoas.
Passou a frequentar os meios onde se fazia ouvir, entender, atender.
Ficou ainda mais conhecido e, a cada dia que passava, outros, maiores e mais diversos grupos queriam que, sim, que Ele fosse seu líder, seu representante.
Passaram a acreditar que, sim, com Ele sendo visto e ouvido, tudo seria diferente, seria melhor, mais feliz.
E foram.
Apoiando, acreditando, lutando para que, enfim, Ele se tornasse representante de todos, da maioria.
Os discursos tornaram-se mais acalorados a cada dia e, por eles, as pessoas iam deixando de lado a resistência, acreditando cada dia mais.
Fazer com que alguém acredite em suas ideias é uma grande responsabilidade.
Ao acreditar, a pessoa deposita em quem acredita o mais precioso dos seus sentimentos: a esperança.
A esperança é, sim, tudo de mais puro, mais sagrado, que alguém pode ter.
E Ele conseguiu, com suas palavras envolventes, convencer milhares, milhões de pessoas e fazer com que eles depositassem nele sua esperança.
Dava gosto ver o rosto dessas pessoas n o dia que enfim Ele chegou aonde queria.
Aonde Ele queria chegar, onde elas queriam que Ele estivesse.
Seus olhos brilhavam, lágrimas, alegria, confiança, a mais pura e genuína esperança por dias melhores.
Reuniram-se em um só lugar as que conseguiram estar ali para o verem assumir o posto onde “há muito já deveria estar.”
Os que não conseguiram viram de suas casas, das praças, assistiram pelo mundo a chegada ao poder de quem os representaria enfim.
A lua de mel começou e tudo parecia transcorrer às mil maravilhas.
Dias melhores certamente estavam chegando.
Ele foi fazendo, trabalhando e se embolando.
O tempo passou e, lentamente, o lugar onde deveria estar os pés foi sendo ocupado pelas mãos.
Algumas pessoas começaram a achar que o mel estava se tornando menos doce.
Lenta ou rapidamente foram deixando a ideia de lado, assumindo a decepção que haviam sofrido.
A esperança foi perdendo lugar para a desconfiança e o medo ocupando lugares nunca antes visitados.

Até que chegou o dia em que Ele, que fora a esperança de mudança de milhões, foi colocado em uma sala.
Sozinho.
Sem aplausos, sem holofotes, sem microfones.
Sozinho em uma sala, foi colocado para pensar no que fizera com a esperança dos que um dia nele confiaram.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

esperancaNada mais agradável do que escutar exatamente o que se quer.
E Ele sabia falar o que muitos queriam ouvir.
Com desenvoltura, alegria, vocabulário fácil e envolvente, conseguia fazer com que muitos parassem e prestassem atenção a suas ideias.
Logo percebeu que as pessoas gostavam do que dizia.
Onde quisesse falar, havia sempre alguém disposto a ouvir.
Conforme isso foi acontecendo, Ele começou a se acostumar com a situação.
A gostar dela.
Alguns discordavam, claro, mas, quando isso acontecia, com habilidade e apoio dos que estavam a sua volta, conseguia convencer o outro de que, sim, estava certo.
Ou então, quando não era convencida, a pessoa era discretamente eliminada do grupo.
Colocada em um canto, rapidamente esquecida.
Com o passar do tempo, o número daqueles que apoiavam o que dizia foi aumentando consideravelmente.
Foi aí que Ele teve uma ideia:
“Posso ser o representante de vocês, posso ser a voz de cada um junto a esses que nos fazem sofrer.”
As pessoas gostaram.
Acharam que seriam muito bem representadas por Ele.
Com o tempo, muitos outros ficaram sabendo que aqueles que Ele representava conseguiam ser ouvidos, atendidos.
– Você não pode privilegiar só esses. Venha nos representar também!
E Ele foi.
Cada dia, conseguia atingir mais e mais pessoas.
Passou a frequentar os meios onde se fazia ouvir, entender, atender.
Ficou ainda mais conhecido e, a cada dia que passava, outros, maiores e mais diversos grupos queriam que, sim, que Ele fosse seu líder, seu representante.
Passaram a acreditar que, sim, com Ele sendo visto e ouvido, tudo seria diferente, seria melhor, mais feliz.
E foram.
Apoiando, acreditando, lutando para que, enfim, Ele se tornasse representante de todos, da maioria.
Os discursos tornaram-se mais acalorados a cada dia e, por eles, as pessoas iam deixando de lado a resistência, acreditando cada dia mais.
Fazer com que alguém acredite em suas ideias é uma grande responsabilidade.
Ao acreditar, a pessoa deposita em quem acredita o mais precioso dos seus sentimentos: a esperança.
A esperança é, sim, tudo de mais puro, mais sagrado, que alguém pode ter.
E Ele conseguiu, com suas palavras envolventes, convencer milhares, milhões de pessoas e fazer com que eles depositassem nele sua esperança.
Dava gosto ver o rosto dessas pessoas n o dia que enfim Ele chegou aonde queria.
Aonde Ele queria chegar, onde elas queriam que Ele estivesse.
Seus olhos brilhavam, lágrimas, alegria, confiança, a mais pura e genuína esperança por dias melhores.
Reuniram-se em um só lugar as que conseguiram estar ali para o verem assumir o posto onde “há muito já deveria estar.”
Os que não conseguiram viram de suas casas, das praças, assistiram pelo mundo a chegada ao poder de quem os representaria enfim.
A lua de mel começou e tudo parecia transcorrer às mil maravilhas.
Dias melhores certamente estavam chegando.
Ele foi fazendo, trabalhando e se embolando.
O tempo passou e, lentamente, o lugar onde deveria estar os pés foi sendo ocupado pelas mãos.
Algumas pessoas começaram a achar que o mel estava se tornando menos doce.
Lenta ou rapidamente foram deixando a ideia de lado, assumindo a decepção que haviam sofrido.
A esperança foi perdendo lugar para a desconfiança e o medo ocupando lugares nunca antes visitados.

Até que chegou o dia em que Ele, que fora a esperança de mudança de milhões, foi colocado em uma sala.
Sozinho.
Sem aplausos, sem holofotes, sem microfones.
Sozinho em uma sala, foi colocado para pensar no que fizera com a esperança dos que um dia nele confiaram.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br