Em pé de novo

peEla sabia que precisava se reerguer.
Não via qualquer possibilidade, não sabia por onde começar, onde se apoiar.
Só sabia que era preciso dar o primeiro passo.
Passava dias e dias sem fazer qualquer movimento nessa direção.
Aliás, dias e dias sem qualquer movimento.
“Você precisa reagir!”
Ouvia diariamente palavras de incentivo vindas de todos os lugares.
Mas como?
Um dia, resolveu dar um passo.
Levantou-se com o sol e, antes que voltasse a se esconder embaixo da coberta, abriu portas e anelas.
Ele, que não faz qualquer tipo de cerimônia, invadiu o ambiente rapidinho.
Não tomou conhecimento da bagunça, do ranço, da poeira.
Simplesmente, foi entrando.
Quando Ela pensou em colocá-lo para fora, já era tarde demais.
Devagarzinho, como quem ainda tem todo o tempo do mundo, foi andando em direção à sala de libertação.
Por lá passara algumas vezes nos últimos dias.
Em todas elas, rápida e superficialmente.
Não ficara o tempo necessário para fazer algo que pudesse causar transformação.
Apenas fora jogar fora o que não mais poderia ficar e voltara para o ninho.
Agora não, agora seu desejo era passar tempo suficiente para realizar mudanças.
Chegou lá e tirou tudo que apertava.
Nem se lembrava quando colocara aquelas amarras.
Parou, olhou-se e não reconheceu aquele olhar triste e cansado.
“Você precisa reagir.”
Ainda pôde escutar a voz do íntimo bem intencionado.
Passou as mãos pelos cabelos.
Sentiu uma textura grudenta.
Abandono.
A pele ressecada, olhos vermelhos.
Sentou-se novamente.
Precisava mudar aquele quadro.
Não tinha forças nem para se mover.
Olhou-se novamente.
E decidiu:
*Vou fazer o que dou conta.
Alguns passos a levaram para o lugar da cachoeira.
Quente, fumengante, controlável.
Entrou e ficou ali embaixo como se não houvesse depois.
Parecia que tudo estava indo embora com a água que escorria velozmente sobre seu corpo.
Era hora de tirar o grude.
Produtos, há tanto esquecidos, foram usados com vigor.
Lá pelas tantas,escutou o que parecia ser uma música.
Foi com surpresa que percebeu que ela surgia de sua própria boca.
*Isso. Dou conta de fazer sozinha.
Desligou a cachoeira depois de mais de uma hora.
Olhou-se novamente.
Seu olhar estava mais limpo.
Parecia mais feliz.
Usou o instrumento barulhento para secar os pelos.
Passou unguentos, cremosidades, perfumes…
Coloriu a pele.
Procurou o pano mais leve, mais colorido e foi encontrar os passarinhos.
*Se estou bem?
Não.
Mas isso eu dou conta de fazer sozinha.
Então faço.
Só hoje.
Um dia de cada vez.
Espero, um dia, me encontrar bem como hoje me peguei cantando.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

peEla sabia que precisava se reerguer.
Não via qualquer possibilidade, não sabia por onde começar, onde se apoiar.
Só sabia que era preciso dar o primeiro passo.
Passava dias e dias sem fazer qualquer movimento nessa direção.
Aliás, dias e dias sem qualquer movimento.
“Você precisa reagir!”
Ouvia diariamente palavras de incentivo vindas de todos os lugares.
Mas como?
Um dia, resolveu dar um passo.
Levantou-se com o sol e, antes que voltasse a se esconder embaixo da coberta, abriu portas e anelas.
Ele, que não faz qualquer tipo de cerimônia, invadiu o ambiente rapidinho.
Não tomou conhecimento da bagunça, do ranço, da poeira.
Simplesmente, foi entrando.
Quando Ela pensou em colocá-lo para fora, já era tarde demais.
Devagarzinho, como quem ainda tem todo o tempo do mundo, foi andando em direção à sala de libertação.
Por lá passara algumas vezes nos últimos dias.
Em todas elas, rápida e superficialmente.
Não ficara o tempo necessário para fazer algo que pudesse causar transformação.
Apenas fora jogar fora o que não mais poderia ficar e voltara para o ninho.
Agora não, agora seu desejo era passar tempo suficiente para realizar mudanças.
Chegou lá e tirou tudo que apertava.
Nem se lembrava quando colocara aquelas amarras.
Parou, olhou-se e não reconheceu aquele olhar triste e cansado.
“Você precisa reagir.”
Ainda pôde escutar a voz do íntimo bem intencionado.
Passou as mãos pelos cabelos.
Sentiu uma textura grudenta.
Abandono.
A pele ressecada, olhos vermelhos.
Sentou-se novamente.
Precisava mudar aquele quadro.
Não tinha forças nem para se mover.
Olhou-se novamente.
E decidiu:
*Vou fazer o que dou conta.
Alguns passos a levaram para o lugar da cachoeira.
Quente, fumengante, controlável.
Entrou e ficou ali embaixo como se não houvesse depois.
Parecia que tudo estava indo embora com a água que escorria velozmente sobre seu corpo.
Era hora de tirar o grude.
Produtos, há tanto esquecidos, foram usados com vigor.
Lá pelas tantas,escutou o que parecia ser uma música.
Foi com surpresa que percebeu que ela surgia de sua própria boca.
*Isso. Dou conta de fazer sozinha.
Desligou a cachoeira depois de mais de uma hora.
Olhou-se novamente.
Seu olhar estava mais limpo.
Parecia mais feliz.
Usou o instrumento barulhento para secar os pelos.
Passou unguentos, cremosidades, perfumes…
Coloriu a pele.
Procurou o pano mais leve, mais colorido e foi encontrar os passarinhos.
*Se estou bem?
Não.
Mas isso eu dou conta de fazer sozinha.
Então faço.
Só hoje.
Um dia de cada vez.
Espero, um dia, me encontrar bem como hoje me peguei cantando.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br