‘Precisamos parar de tratar LGBTs como leprosos’, diz jesuíta consultor do Vaticano

leprosoNo Twitter, padre James Martin já está acostumado a ser alvo de patrulhas homofóbicas, com críticas frequentes daqueles que acreditam que ele seja “perturbado” e “traidor da fé católica” – entre outros impropérios impublicáveis. Nos eventos católicos que conduz, o jesuíta norte-americano recebe abraços de homossexuais e seus familiares, muitas vezes às lágrimas, agradecidos pelo trabalho do missionário de inserção e aceitação dos gays em suas comunidades religiosas.
Depois de anos de experiência com o tema, Martin lançou na Itália na última semana seu mais polêmico – e muito elogiado – livro: ‘Un Ponte da Costruire: Una Relazione Nuova Tra Chiesa e Persone LGBT’, algo como ‘Uma ponte a ser construída: um novo relacionamento entre a igreja e as pessoas LGBT’, em tradução livre.
James Martin nasceu na Pensilvânia e tem 57 anos. Desiludido com o mundo corporativo depois de trabalhar por seis anos no departamento financeiro de uma multinacional, em 1988, Martin entrou para a Companhia de Jesus, mesma ordem religiosa à qual pertenceu o Papa Francisco. Ele foi ordenado padre em 1999 e vive em Manhattan, Nova York. Em 2017, Martin foi nomeado pelo papa Francisco como consultor de comunicação do Vaticano.
Sobre sua grande bandeira, uma melhor aceitação das pessoas LGBT pela Igreja Católica, ele conversou com a BBC Brasil.

BBC Brasil – O Catecismo da Igreja Católica, a publicação que compreende toda a doutrina, diz que as pessoas homossexuais não devem ser marginalizadas. Documentos recentes de Francisco – e mesmo o texto final do Sínodo dos Bispos Sobre a Família – também clamam para que a comunidade LGBT seja recebida com dignidade no dia a dia da Igreja. No seu livro, o senhor diz que a doutrina não é suficiente. O que é preciso, então?
Martin – É preciso compreender que a doutrina não é simplesmente aquelas poucas linhas do Catecismo, mas o Evangelho como um todo. E, no Evangelho, nós vemos que Jesus constantemente ia ao encontro daqueles que sofriam porque estavam marginalizados. É aí que a Igreja é chamada a ser Igreja. E hoje ninguém é mais marginalizado em nossa igreja do que as pessoas LGBT. Então precisamos simplesmente seguir Jesus em seu caminho.

BBC Brasil – O documento final do Sínodo dos Bispos Sobre a Família, de outubro de 2015, apesar de pedir dignidade aos LGBT, reiterou a impossibilidade do casamento gay na Igreja Católica. Acredita que um dia a Igreja poderá celebrar uniões homossexuais?
Martin – Está claro que a doutrina da Igreja é contra o casamento homossexual. Ao mesmo tempo, muitos bispos, inclusive o cardeal Christof Schonborn, arcebispo de Viena, têm afirmado ver o lado bom que existe em tais relacionamentos. Em uma entrevista, Schonborn disse, sobre um casal gay que ele conheceu: “Eles compartilham uma vida, eles compartilham suas alegrias e seus sofrimentos, eles ajudam um ao outro. É preciso reconhecer que essas pessoas deram um importante passo para seu próprio bem e para o bem dos outros, a despeito do fato de que certamente esta não é uma situação que a Igreja pode considerar ‘regular'”.

BBC Brasil – O entendimento vigente na Igreja é que um homossexual não peca por ser homossexual, mas quando mantém uma relação homossexual. Em sua opinião, um gay deveria permanecer casto para que possa exercer o catolicismo em plenitude?
Martin – A doutrina é clara. Mas o que significa “exercer o catolicismo em plenitude”? Significa que eles não podem entrar numa igreja? Que não são católicos? Precisamos, antes, nos lembrar de que eles são católicos pelo dom do batismo. Além disso, ninguém fica apontando o dedo para pessoas heterossexuais de modo semelhante, não ficamos incessantemente questionando-as sobre se eles usam métodos contraceptivos ou se praticam a masturbação – que também são questões que vão contra os ensinamentos da Igreja. Estamos obsessivamente preocupados com a moralidade sexual das pessoas LGBT.

BBC Brasil – No seu livro, o senhor argumenta que a comunidade LGBT deveria ser acolhida pela Igreja Católica com respeito, compaixão e sensibilidade. De forma mais ampla, como podemos entender o significado dessas três palavras?
Martin – São palavras extraídas diretamente do Catecismo. Eu vejo assim: respeitar é primeiro admitir que os católicos LGBT são membros plenos da Igreja, pela virtude do batismo – precisamos tratá-los com a dignidade que todo e qualquer ser humano merece e, principalmente, não rotulá-los ou excluí-los de ministérios e trabalhos dentro da Igreja. Ter compaixão é tentar se colocar em seus lugares e até mesmo sofrer com eles. A palavra compaixão significa não apenas “sentir junto” mas também “sofrer junto”. E a sensibilidade é porque precisamos ser sensíveis com as palavras que usamos com eles e com a maneira como os tratamos, sempre considerando a maneira como os católicos LGBT compreendem e consideram as coisas.

BBC Brasil – O Papa Francisco tem se manifestado enfaticamente a respeito da necessidade de tratar os homossexuais com dignidade. Na sua opinião, como as declarações e os gestos do pontífice têm influenciado a inserção da comunidade LGBT dentro da Igreja Católica?
Martin – A frase mais famosa de Papa Francisco deve ser “quem sou eu para julgar?”, (que ele disse) durante sua visita aos Estados Unidos, em 2015, quando se encontrou com um homem gay e seu companheiro. E dias atrás ele disse a Juan Carlos Cruz, vítima de abuso sexual no Chile, que “Deus fez você assim”, ou seja, Deus fez você gay. Essas coisas estão ajudando os católicos LGBT a se sentir mais em casa em sua Igreja. Além disso, os comentários do papa são convites gentis para que bispos, padres e todos os católicos também sejam mais receptivos à comunidade LGBT. Afinal, a Igreja é deles também.

BBC Brasil – Nas redes sociais, é comum que o senhor seja atacado com mensagens de homofobia. Como o senhor está lidando com a repercussão de seu livro? Suas posições têm sido encaradas mais com naturalidade ou mais com espanto?
Martin – A vasta maioria dos católicos com quem eu me encontro tem sido excessivamente grata. E o livro já foi endossado por vários cardeais, arcebispos e bispos norte-americanos. De modo especial, as pessoas LGBT e suas famílias são muito gratas, chegam a me cumprimentar com lágrimas e abraços. Recebo também muitas críticas, mas a maioria é online – e muitos daqueles que criticam não parecem ter lido o livro…

BBC Brasil – A despeito de todos os avanços, em sua opinião, quais são as grandes urgências da Igreja Católica para realmente acolher os homossexuais?
Martin – A grande urgência é parar de tratá-los como leprosos. Tenho ouvido muitas histórias, as mais horríveis, sobre como a comunidade LGBT tem sido maltratada pela Igreja. Algumas vezes padres simplesmente rotulam pessoas LGBTs como sujas. Alguns meses atrás, um homem – autista, na faixa de seus 30 anos e sem estar vivendo em nenhum relacionamento – me contou que depois que ele saiu do armário para sua família, o padre de sua paróquia disse que ele não poderia mais receber a comunhão. Preciso enfatizar isso: o homem não está vivendo nenhum tipo de relacionamento sexual, então, mesmo no sentido mais conservador, mais ao pé da letra, ele não está quebrando nenhum princípio da Igreja. Mesmo assim, segundo o padre de sua comunidade, ele não podia comungar. Isto é inacreditável. Precisamos parar de tratar pessoas LGBT como se fossem leprosos.

BBC Brasil – As declarações do Papa Francisco têm ajudado a reduzir atos de homofobia, violências contra comunidades LGBT e mesmo a melhorar a aceitação dos gays no dia a dia?
Martin – Sim. As palavras do Papa Francisco vão muito além da Igreja Católica. Como ele é um dos maiores líderes mundiais, muitas pessoas ao redor do mundo ouvem suas declarações. E quando ele diz algo sobre as pessoas LGBT, pessoas LGBT de todo o mundo, católicas ou não, prestam atenção. Ou seja: isto também faz com que as pessoas enxerguem a Igreja como mais abrangente, mais acolhedora e mais pastoral. Então o papa está fazendo muito bem para as pessoas LGBT e suas famílias, católicas ou não, que precisam de palavras de conforto e que cicatrizem suas feridas.

BBC Brasil – Em sua opinião, a Igreja erra ao excluir homens e mulheres divorciados da liturgia? Nesse sentido, é preciso avançar mais?
Martin – Este não é um tema que eu abordo no meu livro – que foca mais na situação dos católicos LGBT. Mas, sim, eu acredito que a Igreja precisa acolher mais e mais os divorciados e os católicos casados em segunda união. E é isso que o papa tem dito reiteradas vezes – e, sobretudo, na exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’.

BBC Brasil – Como você avalia a maneira como o Vaticano tem enfrentado as recorrentes denúncias de pedofilia na Igreja?
Martin – A Igreja está tentando resolver este problema crucial, e deu grandes passos desde os escândalos que começaram em Boston, em 2002. O gesto mais importante feito por Francisco foi ter se encontrado com vítimas, algumas semanas atrás, no Chile. Ele se desculpou em nome da Igreja e, em uma atitude crítica por uma mudança real, chamou ao Vaticano todos os bispos chilenos – encontro este que levou a uma renúncia conjunta dos religiosos. Nos casos de abuso sexual dentro da Igreja, manter os bispos responsáveis é o erro da Igreja. E parece que Francisco está no caminho de resolver isto.
G1

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