Sítio onde foi encontrado ‘cemitério’ indígena no AM pode ter outras urnas enterradas, dizem arqueólogos

Arqueólogos do Instituto Mamirauá que encontraram cemitério de urnas indígenas em uma comunidade do Amazonas afirmaram que existe a possibilidade de encontrar outros registros arqueológicos no local. Em entrevista ao G1, os especialistas dizem que a equipe já deve iniciar trabalhos de identificação dos materiais encontrados e que o processo de análise das urnas pode durar até dois anos.
O “cemitério” de nove urnas funerárias indígenas foi encontrado em julho na comunidade Tauary, localizada na região central do Amazonas. As urnas estavam enterradas a uma profundidade de 40 centímetros da superfície dentro de uma área de quatro metros quadrados nas imediações de uma escola comunitária. Estima-se que o material possa ter mais de 500 anos.
Segundo os arqueólogos que participaram da pesquisa, é possível que outros materiais sejam encontrados no local. Em 2014, as primeiras urnas funerárias foram encontradas por moradores da comunidade. Quatro anos depois, retornaram para mais investigações sobre a trajetória dos povos indígenas que habitavam a área.
“Com certeza existem outros materiais na área. A gente tá começando agora a conhecer o sítio, tentar delimitar ele tanto na largura quanto na profundidade. Então, sabendo dessa possibilidade, a gente abriu uma unidade de escavação um pouco mais distante das urnas e nessa unidade foi possível, analisando o extrato do solo, ver diferentes camadas de ocupação em momentos distintos. A gente não pode afirmar com toda certeza isso, porque o material precisa ser datado e analisado em laboratório, mas pela escavação a gente pode ter uma ideia do que aconteceu lá e essas diferentes grupos que ocuparam a área”, afirmou a arqueóloga Luisa Vieira.
Para o arqueólogo do Instituto Mamirauá, Eduardo Kazuo, é preciso que haja uma preservação adequada da área para abrir espaço para outros pesquisadores voltarem ao local e iniciarem novas pesquisas.
“A gente acredita que possivelmente possam ter outras lá, infelizmente a gente não tinha nem tempo e equipe e logística para procurar mais urnas, mas muito provavelmente tem mais urnas próximas a essas onde a gente cavou. O que a gente espera é que consigam preservar e esperar até que uma outra equipe de arqueologia possa voltar lá e escavar essas urnas”, disse.

Análise das urnas
A partir de agora, a equipe de pesquisa deve analisar cada uma das nove urnas encontradas na comunidade. O material deve ser estudado por uma equipe de arqueólogos de especialidades diferentes. O trabalho pode durar de um a dois anos, segundo Kazuo.
“O nosso plano é fazer todo o tratamento delas [urnas]. Acho que a primeira coisa que a gente precisa fazer é escavar elas, porque todas elas possuem terra dentro, em algum momento e por alguma razão entrou terra dentro, então a parte dos ossos também tá dentro delas, então a gente escava justamente pra tirar os ossos e qualquer outra coisa que tiver dentro dela. Junto com isso, uma outra parte que a gente faz também é a parte de curadoria da própria cerâmica, então são dois processos básicos para a gente colher o máximo de informação possível, é tentar preservar os ossos e a cerâmica também”, afirmou.
O trabalho é minucioso e, além de envolver vários especialistas, engloba diferentes tipos de descobertas. Vieira explica que essa é a primeira vez que se escava um contexto funerário de urnas tão ricas no Amazonas.
“A gente precisa criar um projeto com um grupo de especialistas pra ser feito com toda a paciência para não perder nenhum tipo de informação que as urnas podem vir a nos dar”, disse.
O conjunto das urnas arqueológicas também se diferencia pela variedade entre tipos e adornos nos acabamentos cerâmicos, como a pintura de cabeças humanas, formas animais e a presença ou ausência de bancos, onde as urnas podiam ser colocadas.
“Interessante é que a gente vai conseguir ver o nível organizacional depois da análise das urnas, fazer a etnografia dos desenhos feitos nelas, e tudo tem uma representatividade, uma simbologia que vão ajudar a gente a coletar esse tipo de informação”, finaliza a pesquisadora Luisa Vieira.
G1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial