Grupo aluga e mobília casa para homem que morava em caixa de papelão em Rio Claro

Às vezes contos de fadas existem. Às vezes as fadas são comerciantes, copeiras e outras tantas pessoas que têm o coração cheio de solidariedade e de amor e conseguem transformar a vida de alguém necessitado.
Um desses contos de fadas aconteceu em Rio Claro (SP) e deu a um morador de rua que foi abandonado pela mãe uma casa mobiliada e um grupo de amigos para cuidar dele.
Abandonado
Rejeitado pela mãe, Adriano Canizzo, hoje com 39 anos, foi deixado em um orfanato em Jundiaí (SP) muito novo e adotado por uma família italiana. Há cinco anos, ele resolveu voltar ao Brasil para encontrar sua família biológica e novamente foi rejeitado pela mãe. Depois disso, passou a perambular pelas ruas de Rio Claro.
Quem conta esses fatos não é o próprio Adriano, mas a comerciante Raquel Branco de Moura, a fada madrinha dessa história.
Raquel conheceu Adriano recentemente, no segundo semestre deste ano. Antes, esbarrava com ele em diversos locais de Rio Claro: no ginásio onde o filho joga basquete, no shopping onde ela tem uma loja, nas ruas da cidade.
Aos poucos, ela, o marido e o filho foram se aproximando de Adriano. “Ele sempre andava com uma caixa de papelão e a gente começou acompanhar e viu que ele fazia que nem um casulo com aquela caixa”, conta a comerciante.

“Não posso deixar um amigo na rua”
Foi o filho Murilo, de 16 anos, que falou a frase que mudou a vida do morador de rua.
“A gente tinha levado o Adriano para assistir a um jogo no clube e depois fomos comer. Na hora de ir embora deixamos ele na porta da ACIRC [Associação Comercial e Industrial de Rio Claro], onde ele costumava dormir e meu menino ficou triste e disse:
‘Eu sempre deixei meus amigos em casa. Não posso deixar um amigo na rua’”.
Raquel conta que começou a chorar e a família resolveu ajudar Adriano. “Ali nós saímos, demos risada, tudo, e na hora de ir embora deixamos ele na rua e ele monta a caixinha dele. Isso é doloroso”, diz Raquel.
Montaram um grupo de whatsapp com pessoas que passaram a conhecer Adriano e outras que já o ajudavam, como a copeira da ACIRC Rita de Cássia Silveira que por oito meses lhe ofereceu café da manhã todos os dias. Ela foi, em parte, a responsável por ele escolher a frente da associação como casa.
“Eu o vi em frente à padaria e o convidei para entrar para pegar um pão. Ele disse que não podia entrar porque não tinha dinheiro. Então, eu peguei o pão, vim aqui na ACIRC peguei o café que eu tinha feito e ofereci para ele aqui na frente. A partir daí foi assim todos os dias”, contou.

Casa nova
Em pouco mais de um mês, o grupo conseguiu se mobilizar e alugar uma casa para Adriano, totalmente mobiliada. A inauguração neste mês teve festa com direito a salgadinho e árvore de Natal.
Segundo Raquel, Adriano está cuidando bem da casa. “Fecha direitinho a casa dele, o que você fala para ele é lei, nunca se misturou com má pessoa na rua, isso eu não sei como ele conseguiu”, diz.

Trauma pela rejeição
Adriano foi diagnosticado com transtorno de abandono, causado pelo trauma da rejeição. Está passando por tratamento com uma psiquiatra que junto com a família de Raquel está tentando desvendar o seu passado.
O que se sabe até o momento é que foi deixado em um orfanato em Jundiaí junto com a irmã recém-nascida. Os irmãos foram adotados por uma família na Itália, mas ele fugiu e foi parar em um orfanato italiano, onde foi adotado junto com a irmã novamente por outra família, que foi responsável pela sua criação. O pai italiano foi localizado e está sempre em contato com os amigos de Adriano em Rio Claro e ajudando com informações sobre ele.
Mas o período que ele voltou para o Brasil ainda tem muitas passagens nebulosas.
“Ele falou que quer escrever um livro da história da vida dele, mas para isso ele quer voltar ao orfanato em Jundiaí. A impressão que eu tenho é que ele sofreu muito lá e tem algo para resgatar lá”, afirma Raquel. Ela diz que deverá atender o desejo de Adriano.
O trauma faz com que Adriano, às vezes, tenha o comportamento de uma criança. Ele não se conforma com a sua idade e diz, nestes momentos, que tem, no máximo, 20 anos.
A recuperação da história de Adriano já está adiantada. Além do pai italiano, foi localizada uma irmã por parte de pai em Rio Claro que está sempre presente.
A casa alugada fica ao lado da casa da mãe desta irmã. Ela também adotou Adriano, que a chama de ‘nona’, e está ajudando a cuidar dele.
Preocupada com a velhice de Adriano, Raquel conta que tentará obter um benefício do INSS para que ele possa ter um futuro mais seguro.
“O nosso intuito é inseri-lo na sociedade. A gente está fazendo de tudo para ele ter uma vida digna e continuar porque não adianta a gente acompanhar só um tempo e depois largar então nós pegamos para adotar. É uma história que vai ter um final feliz.”
G1

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