Battisti diz que captura ‘foi uma libertação’, segundo jornal italiano

O italiano Cesare Battisti, preso após quase 40 anos foragido, afirmou a investigadores que estava cansado de fugir e que a sua captura “foi uma libertação”. Ele não se declarou inocente durante o voo que o levou da Bolívia para a Itália. Porém, disse não ser culpado de tudo o que lhe acusam, de acordo com o jornal “Corriere della Sera”.
“Sou culpado, e isso não se discute. Mas não sou culpado de tudo aquilo por que fui acusado. Não, não sou”, afirmou Battisti, que cumprirá pena de prisão perpétua por quatro assassinatos cometidos na Itália nos anos 70.
O jornal italiano não deixa claro a quais crimes ele se refere.
“Eu não aguentava mais fugir. Eu sabia que a contagem regressiva [para o acerto de contas] tinha começado e me perguntava quando terminaria. Eu estava cansado”, declarou ao longo do voo que durou cerca de 15 horas.
As informações são consideradas fundamentais para as autoridades italianas, porque poderiam ser indício de que ele poderia confessar os crimes. Até então, ele sempre negou envolvimento nos assassinatos e se dizia vítima de perseguição política.
O “Corriere della Sera” conta que no começo do voo Battisti perguntou aos investigadores como eles tinham chegado até ele, que estava hospedado em um quarto de hotel barato em Santa Cruz de la Sierra. Os quartos são normalmente alugados por prostitutas por poucas horas.
Os investigadores não responderam. Não era uma “simples curiosidade”. “O terrorista explora uma rede de coberturas criminais e talvez institucionais”, segundo descrição do periódico.
A procuradoria de Milão vai investigar toda a rede de proteção em torno do italiano fugitivo em vários países. As pistas levariam a políticos e até traficantes de drogas.
Battisti dormiu a maior parte voo, que parou para abastecer em Cabo Verde, mas não fez escala no Brasil, como estava inicialmente previsto pelas autoridades brasileiras. Ao chegar a Roma, ele foi transferido para uma prisão de segurança máxima na cidade de Oristano, na ilha da Sardenha, no Mediterrâneo.

Condenado à prisão perpétua
Battisti foi condenado à prisão perpétua em 1993 sob a acusação de ter cometido quatro assassinatos na Itália na década de 70: contra um guarda carcerário, um agente de polícia, um militante neofascista e um joalheiro de Milão (o filho do joalheiro ficou paraplégico, depois de também ser atingido).
Ele afirma que nunca matou ninguém e se diz vítima de perseguição política.
Foram 37 anos de fuga quase permanente, com períodos de prisão e lutas político-judiciais para evitar a Justiça da Itália. Battisti escapou do seu país na década de 1980, viveu no México, na França, no Brasil e, mais recentemente, havia se escondido na Bolívia.
O italiano chegou a conseguir refúgio no Brasil em 2009. Mas o status, concedido a ele pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi revisto em dezembro do ano passado, por Michel Temer, que autorizou sua extradição. A Polícia Federal fez mais de 30 operações para localizá-lo, mas não teve sucesso.

Possíveis benefícios
Após ter cumprido 26 anos no cárcere, ele poderá obter liberdade condicional, informou a correspondente da TV Globo na Itália, Ilze Scamparini.
Como os crimes foram cometidos antes de 1991, quando houve uma mudança na legislação italiana, ele terá alguns benefícios, como sair da cadeia por curtos períodos se apresentar bom comportamento depois de ter cumprido 10 anos de pena.
Como ele foi julgado à revelia, ou seja, sem estar presente, a defesa também pode tentar um novo julgamento.
Foto: Alberto Pizzoli / AFP
G1

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