Gaziantep, a cidade turca que absorveu 200 mil migrantes em 24 horas. Município se tornou modelo de tolerância

Considere que você viva em uma capital do interior brasileiro, como Cuiabá, no Mato Grosso, ou Porto Velho, em Rondônia. Agora tenta imaginar o que aconteceria se essa cidade crescesse cerca de 30%. A maioria das novas moradoras seriam pessoas pobres, famintas e sem teto, ou que nem mesmo fale sua língua.
Agora imagine que, ao invés de reclamar da presença deles ou de tentar mandá-los para fora, você os recebesse bem e os acomodasse da melhor forma possível. Foi isso que aconteceu em Gaziantep, uma cidade industrial turca na fronteira com a Síria, nos últimos anos. Conhecida no país pela suas fábricas de tecido e por ser a “casa do pistache”, ela está há pouco menos de 100 km de Aleppo, município sírio devastado pela guerra civil.
Em abril de 2011, 252 refugiados chegaram à Turquia vindos de Aleppo. Um ano depois, eram 23 mil sírios na Turquia. Em 2015, esse número era de dois milhões. Hoje, segundo dados do governo, 3,6 milhões de refugiados da Síria (ou “pessoas protegidas”, como são registradas) estão em território turco — a maioria delas em regiões do Sul, como Gaziantep.
Gaziantep chegou a receber 200 mil pessoas em um período de 24 horas durante os ataques em Aleppo. Em perspectiva, a maior cidade turca, Istambul, com uma população de 15 milhões de pessoas, abriga hoje 560 mil refugiados ao todo. Gaziantep tem apenas a décima maior população do país: 500 mil habitantes.
Na época do Império Otomano, antes dos estados modernos de Turquia e Síria existirem, Gaziantep e Aleppo eram parte da mesma região. Os refugiados tendem a ficar no sul turco, perto de suas casas, não apenas porque eles podem servir de mão-de-obra barata na Turquia, mas também porque eles compartilharam uma história semelhante. Antes do conflito na Síria, os moradores de Gaziantep compravam pacotes de viagens baratos para passarem férias em Aleppo — conhecida até então como possuidora de grandes tesouros da história primitiva da humanidade.
Os novos moradores, no entanto, também colocaram uma enorme pressão sobre os recursos da cidade — em moradia, água, transporte público e saúde. Com a crise síria em seu sétimo ano e mais da metade dos refugiados abaixo dos 18 anos, a educação também é uma preocupação.
“Antes da guerra havia muitas relações de amizade entre pessoas no sudoeste da Turquia com a Síria. Então, em geral, as pessoas chamam os sírios aqui de ‘convidados’, não de refugiados. A cultura é similar, então é como uma religião”, disse Azhar Alazzawi, administrador do programa de distribuição da comida da ONU no local.
Recentemente, o governo turco propôs uma política de integração com os novos moradores nas áreas urbanas, ao invés de levá-los para espécies de campos. Hoje, apenas 4% dos sírios vivem nesses conglomerados. A ideia pressionou a demanda por moradia em Gaziantep, aumentando o valor dos aluguéis, mas os empregadores tiraram vantagem do rápido crescimento da força de trabalho disponível para baixar os salários. Houve também um conflito sobre o acesso à água — e certo ressentimento de uma classe média alta turca que afirmou que os recursos estavam sendo destinados aos sírios, não aos turcos pobres.
A prefeita de Gaziantep, Fatma Sahin, criou há algum tempo um departamento de administração dos migrantes, cuja ideia é estabelecer um tratamento igualitário aos sírios e aos turcos. Uma das medidas tomadas pela nova pasta, por exemplo, foi persuadir o governo a buscar a água em uma represa há mais de 100 km de Gaziantep para apaziguar a crise hídrica. Os planos agora são construir 50 mil novas moradias, bem como hospitais e melhores serviços públicos.
Apesar das crianças refugiadas aprenderem a língua turca logo que chegam, o idioma permanece uma barreira à integração delas, assim como ao trabalho dos seus pais. Os sírios podem conseguir um visto de trabalho na Turquia se tiverem um emprego registrado, mas os dois lados preferem o mercado informal: os empregadores porque não precisam pagar os impostos e a seguridade social, e os trabalhadores porque não querem perder os pagamentos.

(Foto: divulgação | Gaziantep, Turquia)

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