William, o eterno Nezim a quem amamos

Comecei a semana sofrendo um profundo baque pela morte precoce de minha amiga e colega Lena Guimarães, colunista do Jornal Correio da Paraíba e analista política da TV Correio. E na tarde desta sexta-feira, 22, novamente uma perda incomensurável me abala: William Monteiro (foto), o querido “Nezim”, nos deixa, após batalhar ferrenhamente pela vida no leito de um hospital de Recife, vítima de leucemia, a praticamente um mês de completar o 69º aniversário.
Jornalista da velha guarda, William Monteiro passou a fazer parte de minha vida ainda nos anos 80, quando eu ainda engatinhava e dava meus primeiros passos na carreira. Era uma figura singular. Inteligente, culto e espirituoso, era ao mesmo tempo reservado, discreto e reflexivo. Num dado momento, era capaz, com gestos grandiloquentes e teatrais, narrar um fato com toques de dramacidade cômica e pouco depois recolher-se em suas reflexões, ou mesmo retirar-se do ambiente de forma sutil, quase imperceptível.
William fazia piadas da própria depressão e, um determinado dia, lembro-me que, numa conversa casual que estávamos tendo com o então prefeito Félix Araújo Filho, abordando sobre o que seria o céu de cada um, após a passagem de cada um de nós para a outra dimensão, Nezim nos fez chorar de rir. Félix disse que imaginava-se num paraíso que se limitava a uma superdimensionada biblioteca; lembro-me que citei que, no meu caso, seria uma locadora de vídeo com prateleiras intermináveis. “Pois, para mim, seria uma farmácia superabastecida de babitúricos e afins”…
Assessor do ex-prefeito Ronaldo Cunha Lima e, posteriormente, do filho do poeta, Cássio Cunha Lima, William Monteiro tinha um acendrado senso de lealdade e uma capacidade ímpar de ser companheiro, amigo e auxiliar, sem resvalar para o puxa-saquismo inconveniente, mas sempre com uma preocupação com o bem-estar da figura humana por trás da capa de político. Era um ótimo companheiro de viagem e nutria uma preocupação tão grande com os amigos como tinha pelas árvores, plantadas às centenas por ele.
William Monteiro era bairro da Liberdade. Era o encontro rotineiro no bate-papo do Café Aurora. Era a visita às bancas de revistas do Centro da cidade e sentia grande prazer em passear pelas ruas de Campina Grande. Sentia-se seguro e amado junto à família, mas gostava de respeitar os ares de Campina em seus devaneios geográficos semanais. Acompanhou várias gerações de jornalistas e tinha um olhar desconfiado para as novas tecnologias, mas nunca fugiu ao desafio de fazer uso delas, na medida de sua capacidade.
William Monteiro foi amigo, colega, companheiro, marido, pai, avô e trazia dentro de si uma personalidade que acolhia as intempéries existenciais. Sempre deu a entender que saberia se portar diante do encontro inevitável com a morte, mesmo sendo um amante inveterado da vida. Partiu com dignidade. Deixou a todos com saudade. Que maior legado pode um homem deixar?

Marcos Alfredo
Jornalista

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