Tecnologias da indústria 4.0 aumentam em 28,6% produtividade de empresa da Paraíba

Fábrica de calçados participou de piloto realizado pelo SENAI com 43 companhias de 24 estados. Ganho nacional médio foi de 22%. Projeto inédito no Brasil testou uso de sensores e IoT
As tecnologias digitais da Indústria 4.0 aumentaram em 28,6% a produtividade da fábrica de calçados infantis Bebezinho, de Campina Grande. Ela participou do programa-piloto Indústria Mais Avançada, executado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) com 43 empresas de 24 estados. Nacionalmente, o ganho médio foi de 22%. O projeto foi o primeiro a testar no Brasil, em todas as regiões do país, o impacto na produção do uso de ferramentas de baixo custo, como sensoriamento, computação em nuvem e internet das coisas (IoT).
A maioria das empresas participantes já possuía bom índice de produtividade antes do piloto, pois tinha passado pelo Brasil Mais Produtivo. O programa do governo federal, executado pelo SENAI, elevou em 52%, em média, a produtividade de três mil micro, pequenas e médias indústrias de todo o país por meio de técnicas de manufatura enxuta (lean manufacturing). Após as duas etapas de atendimento de consultores do SENAI, o resultado nacional foi o aumento de 85%, em média, na capacidade das companhias de produzir sem alterar o quadro de funcionários.
“O objetivo do SENAI com a experiência-piloto, chamada de Indústria mais Avançada, é refinar um método de baixo custo, alto impacto e de rápida implementação, que ajude as empresas brasileiras a se inserirem na 4ª Revolução Industrial”, explica o diretor-geral da instituição, Rafael Lucchesi. “A iniciativa do SENAI prova que a Indústria 4.0 é para todos: qualquer tipo de empresa, em qualquer estado do Brasil. O resultado nacional é relevante, e, principalmente, houve ganhos significativos para todas as empresas atendidas”, completa.

SENSORES – Os pilotos foram realizados entre maio de 2018 e outubro deste ano em empresas dos segmentos de Alimentos e Bebidas, Metalmecânica, Moveleiro, Vestuário e Calçados. Os especialistas do SENAI instalaram sensores, que coletam dados, e coletores, que os armazenam. Em seguida, as informações são transmitidas para a plataforma Minha Indústria Avançada (MInA), que permite acesso aos dados de produção da máquina sensoriada. Por meio de tablets e celulares, os gestores podiam acompanhar, em tempo real, o desempenho da linha de produção e, com isso, ter maior controle de indicadores do processo e antecipar-se a eventuais problemas. O equipamento custou até R$ 3 mil.
Na fábrica paraibana, o SENAI instalou sensores na esteira da fase de montagem dos calçados. O proprietário, Sidney Rossly Figueiredo, conta que a nova tecnologia permite a ele acompanhar, de qualquer lugar, em tempo real, se a máquina para de funcionar e a quantidade produzida. “O programa vai informando tudo o que vai acontecendo na esteira durante o dia. Organização da produção é tudo”, explica. A indústria, de 40 funcionários, havia passado pelo Brasil Mais Produtivo, quando já tinha conseguido aumentar sua produtividade em 61%.
O empresário, que não conhecia o conceito de Indústria 4.0 antes da experiência do SENAI, avalia que o uso da tecnologia é essencial para as pequenas empresas. “É fundamental, porque hoje sem tecnologia você vai ficando para trás, de uma forma que você pode terminar sendo aniquilado no mercado”, diz ele. “Com a tecnologia, é possível produzir produtos mais baratos, mais rapidamente, o que influencia também na lucratividade”, complementa.

NORDESTE – No piloto Indústria Mais Avançada, as empresas da região Nordeste, com aumento médio de 28,2%, foram as que mais tiveram ganhos de produtividade. A Japastel, pequena indústria de Salvador que produz massas para pastel e pizza, por exemplo, conseguiu elevar em 32,8% sua capacidade produtiva com uso de sensores na máquina de empacotamento de pizza. A empresa, de 19 funcionários, havia passado pelo Brasil Mais Produtivo, quando já tinha conseguido aumentar sua produtividade em 100%. Ou seja, ao participar das duas etapas, a companhia mais que dobrou sua produção com o mesmo time de colaboradores e sem aumentar o custo.
“A tecnologia ajudou a otimizar o tempo e diminuiu o desperdício. Com isso foi possível aumentar o lucro, pois conseguimos utilizar melhor a matéria-prima”, explica Rose Fukuhara, dona da Japastel. Ela conta que hoje tem outra percepção do que é a Indústria 4.0. “Antes eu achava que o investimento seria muito alto”, diz.
Os resultados da experiência também foram expressivos no Centro-Oeste, com aumento médio de 22,44%. Em seguida, estão empresas do Norte (22,29%), do Sudeste (18,42%) e do Sul (6,37%).

GANHO MÉDIO DE PRODUTIVIDADE POR REGIÃO
REGIÃO AUMENTO MÉDIO
Nordeste 28,2%
Centro-Oeste 22,44%
Norte 22,29%
Sudeste 18,42%
Sul 6,37%
Em relação aos estados, as empresas do Piauí, do Rio Grande do Norte, do Acre e de São Paulo foram as que mais tiraram proveito da digitalização de sua linha produção.

GANHO MÉDIO DE PRODUTIVIDADE POR ESTADO
ESTADO AUMENTO MÉDIO
Piauí 55%
Rio Grande do Norte 41%
Acre 37%
São Paulo 37%
Bahia 33%
Mato Grosso 32%
Paraíba 28,6%
Distrito Federal 28%
Amazonas 25%
Minas Gerais 24%
Rondônia 24%
Amapá 23%
Sergipe 22%
Pará 16%
Paraná 13%
Rio de Janeiro 12%
Alagoas 10%
Ceará 10%
Roraima 10%
Mato Grosso do Sul 9%
Santa Catarina 7%
Espírito Santo 5%
Pernambuco 5%
Rio Grande do Sul 2%

O gerente-executivo de Inovação e Tecnologia do SENAI, Marcelo Prim, explica que as empresas que obtiveram maiores ganhos com as tecnologias digitais foram aquelas que utilizavam menos técnicas de gerenciamento da produção antes de participar do programa. “A técnica nova, ao ser introduzida em uma empresa que utiliza poucos métodos de gestão, proporciona um ganho maior em produtividade”, afirma.
Em relação ao segmento da empresa, Marcelo Prim avalia que todas as áreas atendidas tiveram, em média, um ganho significativo, porém, com pequenas diferenças em relação a quanto cada um conseguiu incorporar a nova tecnologia a seu processo produtivo. “Concluímos que o ganho de produtividade está mais relacionado com o quanto se aprende com o processo produtivo, e como esse aprendizado se transforma em ações concretas. Trata-se mais de uma ciência de dados e de capacitação de pessoas do que de automação de processos produtivos”, diz.

GANHO MÉDIO DE PRODUTIVIDADE NACIONAL POR SEGMENTO
SEGMENTO AUMENTO MÉDIO
Moveleiro 23,91%
Alimentos e Bebidas 22,14%
Metalmecânica 17,80%
Vestuário e Calçados 16,87%

O gerente do SENAI explica ainda que as micro empresas foram as que mais se beneficiaram do uso inicial de tecnologias digitais. “É provável que tenha sido a primeira vez que a empresa parou para analisar seu processo produtivo e conseguiu compreendê-lo de uma forma ampla. Com isso os ganhos são imensos”, afirma. “Observamos que as tecnologias da Indústria 4.0 são uma grande oportunidade especialmente para a micro e pequenas empresas”, complementa Prim.
As grandes companhias não participaram deste piloto, pois foram selecionadas, como regra, empresas atendidas pelo Brasil Mais Produtivo, programa direcionado a pequenos e médios negócios.

GANHO MÉDIO DE PRODUTIVIDADE NACIONAL POR PORTE DAS EMPRESAS
PORTE AUMENTO MÉDIO
Micro 44,82%
Alimentos e bebidas 75%
Moveleiro 19,28%
Vestuário e calçados 10%
Pequena 23,23%
Metalmecânica 36,71%
Alimentos e bebidas 21,6%
Moveleiro 28,22%
Média 11,55%
Moveleiro 24,24%
Metalmecânica 11,5%
Alimentos e bebidas 10%
A análise dos resultados nacionais do programa-piloto também mostrou que a percepção do ganho obtido com a tecnologia é muito afetada pelo porte da empresa. As médias e grandes empresas tendem a investir em tecnologias da Indústria 4.0 para dar continuidade aos esforços de aumento de produtividade. Os micro e pequenos empresários, por sua vez, valorizam mais a agilidade permitida pela plataforma.
“O sistema permite aprender com o processo produtivo, diminuindo o tempo de resposta, tornando-o mais ágil e previsível. Garantir que aquilo que o empresário planejou será entregue nos prazos que ele combinou com o mercado traz um nível de competitividade maior para a pequena empresa e ela consegue se inserir mais facilmente nas cadeias de valor”, analisa Prim.
O SENAI recomenda quatro passos para as indústrias brasileiras se atualizarem tecnologicamente. A digitalização, realizada pelo Indústria Mais Avançada, é um dos primeiros degraus no processo. Nesse estágio, as tecnologias ajudam as empresas a conhecerem melhor seu chão de fábrica e a conseguirem se antecipar a eventos como paradas de máquinas, que afetam a eficiência do processo produtivo.

PASSO A PASSO RUMO À INDÚSTRIA 4.0
1) Enxugar processos: a recomendação é que, antes de digitalizar seus processos, a empresa adote métodos gerenciais e práticas organizacionais, como eficiência energética, produção limpa e manufatura enxuta (lean manufacturing), técnica que reduz desperdícios com medidas de baixo custo, com excelentes resultados no aumento de produtividade.

2) Qualificar trabalhadores: é fundamental qualificar os profissionais das empresas em técnicas como programação, robótica colaborativa e análise de dados, assim como desenvolver competências socioemocionais com métodos para estimular a criatividade, resolução de conflitos, o empreendedorismo, a liderança e a comunicação.

3) Empregar tecnologias disponíveis e de baixo custo: o SENAI recomenda que as tecnologias digitais sejam empregadas, em um primeiro momento, para que as empresas aprendam o que está ocorrendo no seu chão de fábrica e sejam mais ágeis nas decisões. A sugestão é iniciar pela digitalização – utilização de soluções de baixo custo, como sensoriamento, internet das coisas, computação em nuvem e big data para melhor compreensão do processo produtivo. Em seguida, podem ser utilizadas técnicas como “advanced analytics” e inteligência artificial para prever problemas que afetam a produtividade.

4) Investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação: a fim de serem mais competitivas e oferecerem melhores produtos, as empresas precisam investir em inovação. A recomendação é que os empresários tenham como objetivo a implantação de fábricas inteligentes, flexíveis e ágeis, conectadas com suas cadeias de fornecimento e com capacidade de customização em massa de seus produtos, estágio mais avançado da Indústria 4.0.

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