Para indústria, aumento da competitividade passa por mais pesquisa e inovação

A Norvinco é uma empresa alagoana de médio porte especializada na produção de embalagens feitas de papelão ondulado. Criada em 1993, começou há pouco mais de 3 anos a pesquisar opções de materiais sustentáveis para o transporte de itens sensíveis à variação de temperatura, como medicamentos e alimentos.
Após receber orientação do Núcleo de Inovação e Pesquisa (NIP) do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), a Norvinco conseguiu receber recursos da Desenvolve, agência de fomento do estado de Alagoas, para tocar o projeto. O resultado foi lançado comercialmente em 2017: a caixa ecotérmica é feita de papelão ondulado e lã de pet (polipropileno) e consegue manter a refrigeração entre 2 e 8 graus por até 48 horas.
“A caixa ecotérmica é uma alternativa mais sustentável do que o isopor, o nome comercial do poliestireno expandido, ou EPS, para o transporte de medicamentos, de alimentos e também de amostras laboratoriais. A caixa é produzida a partir de materiais 100% recicláveis e oferece vantagens logísticas, uma vez que seu tamanho pode ser personalizado e ela é desmontável”, explica Nicolas Hassenstein, diretor comercial da Norvinco.
O isopor também é reciclável, mas as características do material – baixa densidade, uma vez que é composto por 98% de ar e 2% de plástico, e grande volume – fazem com que a viabilidade econômica da reciclagem seja mínima. Uma vez que é descartado na natureza, o tempo necessário para que o isopor se decomponha integralmente é incerto.
Hassenstein afirma que a inovação focada no desenvolvimento de produtos com baixo impacto ambiental é uma das prioridades da Norvinco. Pesquisa divulgada no ano passado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que a busca por novos produtos ou novas formas de desenvolver um produto faz parte do planejamento estratégico das empresas para assegurar a sustentabilidade de seus negócios no curto e no longo prazo.
O levantamento ouviu presidentes e vice-presidentes de 100 indústrias – 40 de grande porte e 60 de médio e pequeno porte– e mostrou um panorama preocupante: 39% acham que o grau de inovação da indústria do país é baixo, valor que representa um avanço na comparação com os resultados obtidos na primeira edição da pesquisa – realizada em 2015, quando 54% dos entrevistados apontaram que o grau de inovação do setor industrial do país era baixo.
Cerca de 1/3 dos empresários ouvidos (32%) acreditam que o grau de inovação da indústria brasileira será alto ou muito alto nos próximos 5 anos. A fonte do financiamento para que isso ocorra é incerta. Por um lado, 55% dos participantes da pesquisa afirmaram que utilizam recursos próprios para financiar projetos inovadores. Por outro, as linhas governamentais de fomento à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação (PD&I) têm sido reduzidas de forma contínua.
O orçamento original do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para 2019 era de R$5,1 bilhões, mas cortes de gastos fizeram com que 37% desse valor fosse contingenciado. Já o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) investiu cerca de R$1 bilhão em projetos de PD&I entre 2016 e 2018 – valor muito inferior aos R$4 bilhões que arrecadou por ano no período.

Diretora de Inovação da CNI, Gianna Sagazio, afirma que países reconhecidos internacionalmente como inovadores investem em políticas públicas de longo prazo, criando uma forte articulação entre o setor empresarial, o governo e a academia. O resultado da adoção dessas políticas é que a inovação acaba por se tornar um dos vetores de desenvolvimento da economia desses países.
“A empresa não inova se ela não estiver inserida em um ecossistema que fomente à inovação. Não existe no mundo exemplo de país que tenha se tornado inovador só com recursos do setor empresarial. Tem que haver um esforço coletivo, envolvendo o governo, a academia, a sociedade como um todo. O próprio conceito de inovação diz que ela tem que estar inserida no mercado”, explica Gianna.

O desempenho do Brasil no Índice Global de Inovação, divulgado anualmente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, tem refletido a falta de políticas consistentes de fomento à PD&I. Em 2019, o país ficou na 66ª posição do ranking que avalia 129 países. Em 2011, o Brasil ocupava o 47º lugar.
“Estamos retrocedendo. Caímos 19 posições nos últimos 9 anos. Temos que, de fato, ter uma vontade política muito grande para construir uma estratégia de inovação para o país, visualizar quais os resultados a gente quer alcançar e priorizar algumas áreas, porque não dá para fazer tudo de uma vez. Os países reconhecidos como inovadores têm escolhido áreas em que vão fazer investimentos de forma mais intensiva, e essa escolha é feita de maneira conjunta com a sociedade”, afirma a diretora da CNI.

CRIANDO UM ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO
Em outubro de 2009, a BBC inglesa publicou reportagem indicando que Florianópolis poderia se tornar o “Vale do Silício da América do Sul”. Onze anos depois, não há dúvidas de que a capital de Santa Catarina se tornou um dos polos de inovação e tecnologia do país.
Mas como isso ocorreu? Por estar instalada numa ilha, Florianópolis sempre teve restrições à atividade industrial e, na avaliação do superintendente geral do Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras (Fundação Certi), José Eduardo Fiates, essas limitações acabaram resultando na criação de um ecossistema de inovação. “Pelo fato de não termos uma estrutura de indústrias forte, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) nasceu em 1960 com o objetivo de criar uma escola de engenharia na região”.
A falta de um setor industrial forte fez com que a universidade buscasse parcerias em outros estados e também fora do país. Da mesma forma, os professores tinham que dialogar constantemente com empresas para que seus alunos tivessem opções de estágio. Os primeiros reflexos dessas trocas apareceram já na década de 1970, quando começaram a surgir as primeiras startups no Estado. Em 1986, foram criados uma incubadora de empresas e também um condomínio empresarial.
“Nós saímos de cerca de dez empresas que faturavam perto de US$1 milhão em meados da década de 1980 para mais de mil empresas que faturam mais de US$1 bilhão atualmente. A cidade tem se destacado com uma das maiores taxas de crescimento de startups e de faturamento também”, ressalta Fiates.
As primeiras empresas de tecnologia nasceram nas proximidades da UFSC, mas uma política formal do governo do estado fez com que elas começassem a se distribuir em áreas menos povoadas de Florianópolis. Fiates explica que foi implantado um parque tecnológico no início da SC-401, rodovia que segue do centro da ilha para a região norte: “A área acabou se tornando um eixo de desenvolvimento da cidade. Hoje, cerca de 80% das startups e das empresas de tecnologia consolidadas estão localizadas entre o início, o meio e o final da rodovia”.
Esse eixo de inovação que foi o local escolhido para sediar o Lab-Faber, um laboratório-fábrica que facilita o desenvolvimento e o teste de soluções digitais criadas para atender demandas específicas da indústria. O laboratório é resultado de parceria entre a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC) e a Fundação Certi.

MOBILIZAÇÃO PELA INOVAÇÃO
Até pouco tempo atrás, a inovação não era pauta prioritária para muitas empresas do país. Isso começou a mudar em meados de 2008, quando foi criada a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI). Inicialmente um pequeno grupo de empresários, a MEI reúne hoje representantes de mais de 200 empresas nacionais e de multinacionais que atuam no Brasil. O grupo é coordenado pela CNI e busca estimular a competitividade da indústria brasileira por meio de incentivos à inovação.
“A MEI nasceu para colocar a inovação como parte da estratégia central das empresas e também porque percebemos que precisávamos de uma ação coordenada junto ao governo no sentido de melhorar os instrumentos que incentivam a inovação, como a educação, as linhas de financiamento, as leis que tratam de propriedade intelectual e do comércio exterior”, afirma o líder da MEI, Pedro Wongtschowski, que também é presidente do conselho de administração da Ultrapar.
A MEI realiza programas de imersões para que empresários possam conhecer ecossistemas inovadores no Brasil e em outros países, oferece linhas de financiamento para que empresas possam custear projetos específicos de inovação, mapeou os impactos que oito tecnologias disruptivas terão em dez segmentos industriais relevantes e disponibiliza ferramentas para que as empresas entendam como podem estimular a inovação em suas equipes. O grupo também mantém diálogo constante com o governo e acredita que o país avançou em alguns pontos, como a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o aperfeiçoamento do sistema de registro de propriedades intelectuais.
Mas Wongtschowski avalia que a rentabilidade do setor industrial brasileiro continua baixa por problemas estruturais e devido a um círculo vicioso que impede a criação de ambientes favoráveis à inovação. “A baixa produtividade oriunda da baixa atividade inovadora reduz a rentabilidade das empresas, e isso reduz o total de recursos disponíveis para a inovação. Também não ajuda o fato de que não avançamos nada em termos de reforma tributária e que todas as linhas de subsídios para pesquisa e desenvolvimento tenham sido reduzidas. Não há uma mudança institucional regular, e a própria Embrapii batalha para conseguir recursos. Ainda temos muitos motivos para continuar mobilizados na MEI”.
A série Caminhos da Indústria – desafios e oportunidades é produzida pelo Poder360, com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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