Ministério da Saúde dialoga com o tráfico e com a milícia, diz Mandetta

O governo federal prepara uma estratégia de combate ao novo coronavírus nas favelas brasileiras que buscará amparo de lideranças ligadas ao crime organizado. Segundo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a pasta está disposta a dialogar com chefes do tráfico e de milícias para conseguir apoio às medidas de isolamento.
“A saúde dialoga, sim, com o tráfico, com a milícia, porque também são seres humanos e precisam colaborar, ajudar, participar. Então, neste momento, quando a gente faz esse tipo de colocação, a gente deixa claro que todo mundo vai colaborar (no combate à covid-19)”, disse o ministro durante coletiva de imprensa nesta quarta-feira, 8.
Mandetta reconheceu que há dificuldade para implementar o plano de manejo das favelas e comunidades com exclusão porque são regiões marcadas pela ausência do Estado e dominadas por líderes informais ligados ao crime organizado. Há relatos de toques de recolher impostos por esses grupos aos moradores dessas regiões.
“Temos dificuldade, sim, em apresentar o plano de manejo das favelas ou das comunidades com exclusão. Hoje nós começamos o primeiro plano de manejo, não vou falar em qual comunidade será, para fazer um teste piloto porque ali você tem que entender a cultura, a dinâmica, ali a gente tem que entender que são áreas que muitas vezes o Estado está ausente, que quem manda é o tráfico”, afirmou.
Desde o início da crise, Mandetta e autoridades discutem como garantir medidas de isolamento para pessoas de baixa renda, especialmente do Rio de Janeiro. Em março, o ministro da Saúde debateu o assunto com integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos pontos levantados é que moradores de comunidades muitas vezes não possuem nem sequer saneamento básico e compartilham com parentes casas com apenas um ou dois cômodos.
O receio do governo é que, após os primeiros casos de covid-19 nas comunidades, será mais difícil controlar a propagação da doença por causa das condições impróprias. Até esta quarta-feira, quatro das maiores comunidades do Rio já tiveram pelo menos seis mortes confirmadas por coronavírus. Rocinha, Manguinhos, Maré e Vigário Geral somam 23 casos registrados da doença.

RECADO
A assessoria do Ministério da Saúde esclareceu a reportagem que a intenção do ministro em sua fala foi dar um recado para traficantes e milicianos de que na hora em que o vírus começar a se disseminar nas favelas, os profissionais de saúde vão ter de entrar nas comunidades.
Mandetta reconhece que algumas áreas são dominadas pelo tráfico e milícia, que impõem suas aos moradores, então a comunidade vai ter de resolver essa situação de permitir a entrada de agentes de saúde em suas residências.
Dida Sampaio/Estadão
MSN/Estadão

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