Cortejo de homenagem a John Lewis passa pela ponte em Selma, marco da luta pelos direitos civis nos EUA

John Lewis, pioneiro dos direitos civis nos Estados Unidos, passou uma última vez pela ponte Edmund Pettus, em Selma neste domingo (26). Seu cortejo relembrou o momento de luta pelos direitos civis em que Lewis atravessou este marco ao lado de Martin Luther King.

No início da tarde, o caixão do congressista deixou a Capela Brown onde foi velado. Ele será enterrado no Capitólio, governo do estado do Alabama. Lewis morreu na semana passada, aos 80 anos.

Homenagens começaram no sábado

O condado rural no Alabama onde nasceu foi o cenário neste sábado (25) do primeiro dia de homenagens a John Lewis, congressista pelo estado da Georgia e ícone na luta por direitos civis, morto aos 80 anos no dia 17 de julho.

O culto matutino na cidade de Troy, no condado rural de Pike, foi realizado na Universidade de Troy, onde, segundo a Associated Press, Lewis costumava lembrar que lhe fora negada a admissão em 1957 por ser negro, e onde décadas depois recebeu um doutorado honorário.

O culto foi intitulado “The Boy from Troy”, apelido que o Rev. Martin Luther King Jr. deu a Lewis na sua primeira reunião em 1958 em Montgomery. King enviou a Lewis, de 18 anos, uma passagem de ônibus de ida e volta porque Lewis estava interessado em tentar frequentar a universidade – então apenas com alunos brancos – em Troy, a apenas 16 quilômetros da fazenda de sua família no condado de Pike.

No domingo, seu caixão envolto na bandeira dos EUA será carregado através da ponte Edmund Pettus, em Selma, onde ele esteve entre os manifestantes de direitos civis espancados pela polícia em 1965 (leia mais abaixo). Ele também será velado no Capitólio estadual em Montgomery. Outro funeral está programado para o Capitólio de Washington, antes do enterro na Georgia.

 

‘Mudaria o mundo’

Durante a homenagem na Universidade de Troy, seus irmãos e irmãs recordaram Lewis – chamado Robert em casa – como um garoto que praticava pregando e cantando músicas gospel para os animais da fazenda. E como um jovem que partiu com uma visão para mudar o mundo.

“Lembro-me do dia em que John saiu de casa. A mãe disse a ele para não se meter em problemas, para não atrapalhar… mas todos sabemos que John se meteu em problemas, atrapalhou, mas foi um bom problema”, disse seu irmão Samuel Lewis. “E os problemas em que ele se metia mudariam o mundo”, acrescentou.

Os membros de sua família imploraram à multidão para continuar o trabalho de Lewis. “Ele costumava nos dizer se você vê algo errado, faz alguma coisa”, disse sua irmã, Rosa Tyner.

Um jovem sobrinho-neto de Lewis, Jaxon Lewis Brewster, de apenas 7 anos, falou brevemente e disse: “O congressista Lewis era meu tio e meu herói, e cabe a nós manter seu legado vivo”.

Vidas Negras Importam

A última aparição pública de Lewis foi no início de junho, quando participou de um ato perto da Casa Branca, em Washington, em meio aos protestos antirracistas motivados pela morte de George Floyd, um afro-americano sufocado por um policial branco em Minneapolis.

Já debilitado por um câncer de pâncreas e usando uma bengala, ele caminhou com a prefeita Muriel Bowser, em Washington, DC, em uma rua da Casa Branca que Bowser havia acabado de renomear Black Lives Matter Plaza, e que tinha sido decorada com um grande mural amarelo onde foi escrito “Black Lives Matter” (Vidas negras importam).

 

Trajetória

Lewis nasceu em Troy, no Alabama, em 1940. Era o quarto de dez irmãos de uma família de camponeses e cresceu em uma comunidade totalmente negra, onde rapidamente sentiu a segregação pela cor da pele.

Tinha apenas 21 anos quando se tornou um dos fundadores dos “Passageiros da Liberdade”, que lutaram contra a segregação racial no sistema de transporte público americano no início dos anos 1960.

Lewis foi o líder mais jovem da manifestação de 1963 em Washington, na qual Luther King proferiu seu histórico discurso “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”).

Dois anos depois, quase morreu em uma manifestação antirracista pacífica em Selma, Alabama, quando teve um crânio fraturado pela polícia.

Aquele dia ficou conhecido como “Domingo Sangrento” e, exatamente meio século depois, caminhou de mãos dadas com Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, até o local do protesto emblemático.

Lewis entrou no Congresso em 1986 e logo se tornou uma das vozes mais poderosas da defesa da justiça e da igualdade.

Foto: Chris Aluka Berry/Reuters

G1

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