Michelle Obama e Bernie Sanders alertam para ‘caos’ e ‘risco à democracia’ de Trump em abertura da Convenção do Partido Democrata

Apresentando Joe Biden como “um homem profundamente decente, guiado pela fé” e que “sabe o que é preciso para resgatar uma economia, combater uma pandemia e liderar nosso país”, a ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, encerrou a primeira noite da Convenção Nacional do Partido Democrata nos EUA nesta segunda-feira (17).
Em seu discurso, ela comparou os EUA deixados por seu marido Barack Obama ao final de seu mandato e o estado do país atualmente, citando casos de violência, ódio e racismo, dificuldades enfrentadas durante a pandemia de coronavírus por pessoas que perderam seus planos de saúde e que passam por problemas financeiros devido a uma má administração da crise por parte do governo.
“As palavras de um presidente têm o poder de mover os mercados”, disse. “Como eu disse antes, ser presidente não muda quem você é. Revela quem você é”.
“Sempre que olhamos para esta Casa Branca em busca de liderança, consolo ou qualquer aparência de estabilidade, o que obtemos é o caos, a divisão e uma total e absoluta falta de empatia”.
“Deixe-me ser o mais honesta e clara possível. Donald Trump é o presidente errado para nosso país. Ele teve tempo mais do que suficiente para provar que pode fazer o trabalho, mas está claramente perdido. Ele não está a altura deste momento. Ele simplesmente não consegue ser quem precisamos que ele seja para nós. É simplesmente isso”, disse a ex-primeira-dama.
“Se você acha que as coisas não podem piorar, acredite, elas podem, e elas irão se não fizermos uma mudança nesta eleição”, acrescentou.
“Se temos alguma esperança de acabar com este caos, temos que votar em Joe Biden como se nossas vidas dependessem disso”, pediu, dizendo aos eleitores que eles precisam votar em números “que não podem ser ignorados”.
Michelle Obama lembrou que apenas conquistar uma maior quantidade de votos absolutos pode não ser suficiente, já que Hillary Clinton venceu em votos populares, mas perdeu a eleição presidencial de 2016 no colégio eleitoral.

Ameaça sem precedentes
Antes de Michelle, falou o principal adversário de Biden nas prévias do partido, o senador independente Bernie Sanders, que clamou por um movimento “sem precedentes”.
“Enfrentamos a eleição mais importante da história moderna deste país. Precisamos de um movimento de pessoas para defender a democracia e a decência”, alertou.
“Juntos, movemos este país em uma direção nova e ousada, mostrando que todos nós – negros e brancos, latinos, nativo americanos, asiáticos-americanos, gays e heterossexuais, nativos e imigrantes – ansiamos por uma nação baseada nos princípios da justiça, do amor , e compaixão”.
“Nossa campanha terminou há vários meses, mas nosso movimento continua. Muitas das ideias pelas quais lutamos, que há apenas alguns anos eram consideradas “radicais”, agora são mainstream. Mas se Trump for reeleito, todo o progresso que fizemos estará em risco.
Sob este governo, o autoritarismo se enraizou em nosso país. Enquanto eu estiver aqui, vou trabalhar com progressistas, com moderados e, sim, com conservadores, para preservar esta nação de uma ameaça que tantos de nossos heróis lutaram e morreram para derrotar. Trump não é apenas uma ameaça à nossa democracia, mas ao rejeitar a ciência, ele colocou nossas vidas em perigo.
Trump atacou médicos e cientistas que tentavam nos proteger da pandemia e se recusou a tomar medidas firmes”, afirmou o senador.
“Nero brincava enquanto Roma queimava; Trump joga golfe”, disse Sanders
“Juntos devemos construir uma nação que seja mais justa e inclusiva. Eu sei que Joe Biden vai começar essa luta no primeiro dia”, concluiu.

Republicanos por Biden
O primeiro dia da primeira convenção democrata da história a ser realizada de forma totalmente remota teve ainda como destaque a presença de tradicionais republicanos, entre eles o ex-governador de Ohio John Kasich, que chegou a concorrer à indicação de seu partido para disputar a presidência em 2016.
Grande crítico do governo Trump, Kasich anunciou que prefere votar contra seu próprio partido e apoiar Biden a ajudar a reeleger seu antigo adversário.
Em um segmento que falou sobre colocar seu país acima de seu partido, Kasich disse: “tenho sido um republicano a vida inteira, mas esse apego ocupa o segundo lugar em relação à minha responsabilidade para com meu país. É por isso que escolhi aparecer nesta convenção. Em tempos normais, algo assim provavelmente nunca aconteceria, mas estes não são tempos normais”.
“A América está em uma encruzilhada”, acrescentou. “O que está em jogo nesta eleição é maior do que em qualquer outra nos tempos modernos.”
A noite teve ainda a presença de alguns dos políticos democratas que disputaram com Biden as primárias democratas, discutindo porque concorreram, as lutas que apoiam e porque estão unidos para eleger o ex-vice-presidente.
Participaram do debate os empresários Tom Steyer e Andrew Yang, o ex-deputado Beto O’Rourke, o deputado Seth Moulton, o governador de Washington, Jay Inslee, e os senadores Cory Booker, Kirsten Gillibrand e Kamala Harris, que será a vice na chapa de Biden. Outra senadora e ex-pré-candidata, Amy Klobuchar, também esteve entre os que discursaram esta noite.

Justiça Racial e Covid-19
Para falar sobre justiça racial, o próprio Biden mediou uma discussão entre a prefeita de Chicago, Lori E. Lightfoot, ativistas e a escritora Gwen Carr, mãe de Eric Garner, um homem negro morto por um policial em 2014.
Antes, a prefeita de Washington DC, Muriel Bowser, também foi convidada a falar sobre o tema, assim como parentes de George Floyd, que citaram nomes de outras vítimas de violência racial.
Em outra rodada, os governadores de Nova York, Andrew Cuomo, e de Michigan, Gretchen Whitmer, falaram sobre o enfrentamento ao coronavírus.
“A Covid-19 é o sintoma, não a doença”, disse Cuomo. “Nossa nação está em crise e, de muitas maneiras, a Covid é apenas uma metáfora. Um vírus ataca quando o corpo está fraco e não pode se defender. Nos últimos anos, o corpo político da América foi enfraquecido, as divisões se aprofundaram…Só um corpo forte pode lutar contra o vírus, e as divisões da América o enfraqueceram”, acrescentou.
Foram ouvidas ainda as palavras de Kristin Urquiza, uma mulher que perdeu seu pai – um eleitor de Donald Trump – para a doença e que criticou duramente a política federal para o combate ao coronavírus.
“Meu pai era um homem saudável de 65 anos. Sua única condição preexistente era confiar em Donald Trump, e por isso, ele pagou com a vida”, afirmou. No mês passado, Urquiza escreveu um editorial no jornal “Washington Post” e uma carta a Trump culpando ele e o governador do Arizona pela morte de seu pai.
O mesmo bloco teve também uma conversa entre um médico, um paramédico e dois enfermeiros que atuam na linha de frente do combate à Covid-19, falando sobre as dificuldades de seu trabalho e o que esta eleição pode representar para eles.

Reuniões virtuais
O dia começou com uma série de reuniões virtuais, começando com a do Caucus Hispânico do Partido Democrata, no qual vários congressistas e líderes sociais destacaram o impacto desproporcional do novo coronavírus na comunidade latina, de acordo com a agência France Presse. “Muitas comunidades latinas apresentam a taxa mais alta de infecções”, assinalou Julián Castro, único latino que disputou a indicação nas primárias.

Programação
A convenção democrata prossegue até a quinta-feira, data em que Joe Biden irá aceitar oficialmente a nomeação do partido como candidato à presidência nas eleições de 3 de novembro.
Na programação de quinta-feira, os destaques deverão ser os discursos de sua mulher, Jill Biden, e do ex-presidente Bill Clinton, mas a agenda inclui ainda a participação do líder democrata no Senado, Chuck Schumer, do ex-secretário de Estado, John Kerry, e da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, entre outros.

Foto: Democratic National Convention via AP
G1

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