O Xadrez de 2026: O racha na Borborema e o peso do Senado na nova dinâmica estadual, por Raoni Rodrigues
A política na Paraíba nunca aceitou amadores. A poucos passos das convenções partidárias, o clima nas antessalas do poder já não é de articulação leve, mas de guerra de trincheiras. O cenário que se desenha para a sucessão estadual coloca frente a frente projetos colossais, mas com um ingrediente inédito e explosivo: a fratura exposta no maior reduto eleitoral da oposição. Como analista que acompanha as ruas e os bastidores há anos, afirmo sem sombra de dúvida: o jogo virou de ponta-cabeça, e Campina Grande será o epicentro desse terremoto tático.
A Força da caneta e a janela de oportunidade em Campina
O atual governador Lucas Ribeiro entra no jogo com o trunfo mais cobiçado de qualquer eleição majoritária: a máquina na mão. A caneta tem um peso gravitacional indiscutível. Mas a grande vantagem estratégica de Lucas não está apenas no Palácio da Redenção; está na sua própria raiz. Sendo filho de Campina Grande, Lucas observa com clareza a implosão do grupo adversário na sua cidade natal. Com a oposição rachada, a matemática eleitoral sorri para ele. Há um cenário real e amplamente discutido nos bastidores de que Lucas consiga consolidar uma vitória robusta logo no primeiro turno dentro da Rainha da Borborema, aproveitando-se do vácuo deixado por essa divisão. O desafio de sua campanha será capitalizar esse momento com maestria, consolidando-se como um líder pacificador e autônomo.
O racha histórico: Cunha Lima contra Cunha Lima
Para entender o xadrez atual, é preciso olhar com lupa para a divisão no clã Cunha Lima. A estrutura que antes funcionava como um rolo compressor agora está em trincheiras opostas. De um lado, o atual prefeito de Campina Grande, Bruno Cunha Lima, decidiu caminhar com Efraim Moraes. Do outro, a ala histórica e de maior apelo emocional da família, liderada por Cássio Cunha Lima e sua mãe, Dona Glória, juntou forças com o ex-prefeito Romero Rodrigues, um gestor que deixou a prefeitura com índices de aprovação estratosféricos. Esse bloco histórico mudou a gravidade da disputa ao decidir apoiar a chapa de Cícero Lucena, que traz Diogo Cunha Lima, filho de Cássio, na vice.
O eixo Litoral-Borborema e o peso do Senado
Ao trazer Diogo Cunha Lima para a vice, Cícero Lucena constrói uma engenharia política de altíssimo impacto, unindo as duas maiores forças demográficas da Paraíba. Mas o verdadeiro golpe de mestre em Campina Grande vai além do apelo histórico de Cássio e Dona Glória. A chapa aglutina não só a aprovação de Romero Rodrigues, mas também o peso institucional e político do atual senador e ex-prefeito campinense Veneziano Vital do Rêgo, pré-candidato à reeleição. Ter Veneziano, Romero e a ala tradicional dos Cunha Lima no mesmo palanque, marchando junto com Cícero e Diogo, cria uma força de arrasto gigantesca. São décadas de memória afetiva, administrativa e força de mandato concentradas contra uma gestão municipal isolada. Matematicamente e politicamente, é uma composição de dar calafrios nos adversários.
A capilaridade do Sertão e o fator rejeição
Correndo nessa pista com inegável inteligência tática, Efraim construiu uma base sólida de prefeitos e dialoga perfeitamente com o setor produtivo. Ele tem capilaridade e sabe caminhar no sertão. Seu grande lance em Campina Grande, contudo, foi fechar com o atual prefeito, Bruno Cunha Lima. Ter a máquina municipal da segunda maior cidade do estado ao seu lado é, teoricamente, uma vantagem expressiva. O revés dessa moeda é a leitura das pesquisas recentes, que apontam que Bruno amarga uma rejeição altíssima. Diante da união de titãs como Veneziano e Romero no palanque oposto, Efraim, que se posiciona como um candidato de baixa rejeição inicial, precisará de uma habilidade cirúrgica para absorver a máquina de Bruno sem ser contaminado por essa impopularidade. Sua comunicação terá que transformar esse apoio em estrutura útil, e não em uma âncora pesada.
O veredito das urnas
Nenhum estrategista dorme tranquilo com um quadro desses. A fratura em Campina Grande e as alianças de peso não apenas embaralharam as cartas, mas reescreveram as regras da sucessão. O eleitor paraibano é passional, mas extremamente perspicaz e vacinado contra ilusões políticas. Vencerá aquele que tiver a leitura mais sensível desse novo cenário, aquele que souber aliar a emoção da mudança à segurança técnica que o estado exige.
A sorte está lançada. Com a Borborema dividida e os gigantes em movimento, a Paraíba vai tremer como nunca.
Por Raoni Rodrigues
Com uma década de experiência na linha de frente da coordenação de campanhas políticas, Raoni Rodrigues, formado em Direito e Gestão de Recursos Humanos, com especialização em Marketing e Comunicação com o Mercado e pós-graduando em Ciência Política e Processo Civil, assina análises sobre os bastidores da política paraibana e a engenharia eleitoral brasileira.



