Com despensa vazia, famílias mais pobres pulam refeições e dependem de doações para sobreviver

“Faz mais de um ano que a gente não consegue ir ao mercado fazer uma compra de R$ 300. A única coisa que a gente ainda compra é o café.”
É o que conta a pensionista Ana Maria Maia. A despensa dela e do marido Raimundo está quase vazia: tem apenas os últimos remanescentes de uma cesta básica que eles ganharam da igreja no início do mês.
Quando a reportagem visitou a casa deles, no Jardim Inamar, em Diadema (SP), no dia 18 de agosto, fazia 20 dias que o casal havia recebido a pensão, no valor de 1 salário mínimo. Quando esse dinheiro entra, eles conseguem pagar o aluguel de R$ 800, as contas e quase não sobra para comer. A ‘solução’ é se virar, pular refeições e batalhar para fazer uma graninha na rua.
Na quarta-feira (24), dados do IBGE mostraram em números essa realidade. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) – considerado a prévia da inflação oficial do país, caiu 0,73%. Mas o preço dos alimentos subiu. Aliás, foi o que mais subiu no período.
O que ajuda a trazer dinheiro pra casa é a cantoria do Rai. Músico, cantor e compositor, ele canta de domingo a domingo nas ruas de São Bernardo do Campo.
“A gente já conseguiu tirar R$ 300 num dia. Mas essa semana mesmo a gente fez só R$ 7. Não é porque as pessoas não querem ajudar, é que elas não têm mais condição mesmo”, conta Rai, que é deficiente visual.
Em outra comunidade de Diadema, Jardim União, mora dona Miriam, que também foi visitada pela reportagem. Ela está desempregada há mais de 10 anos porque ficou com uma série problemas no pulmão, na pele e na coluna quando trabalhava fazendo a limpeza de um hospital. Quando acorda sem dor, ela vai pra rua fazer reciclagem com o marido.
O marido vive de bicos. Ela diz que ele já espalhou currículo em todos os comércios da região, mas nada aparece. Neste mês, conseguiu um serviço de pintor em uma obra em São Paulo e sai cedinho todos os dias para voltar no fim da noite.
Na geladeira e no armário de Miriam havia poucas coisas que ela recebeu de doações: alguns pedaços de frango cedidos pela vizinha, 3 pacotes de massa pronta que o filho ganhou na reciclagem, um ovo, arroz e feijão.

Famílias não conseguem fazer todas as refeições
Ana, Raimundo e Miriam fazem parte das famílias que foram entrevistadas para a pesquisa “Vulnerabilidades e reinvenções na pandemia de Covid-19”, realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E também dos 61,3 milhões (três em cada dez) brasileiros que passam por insegurança alimentar, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em julho.
Os dados colhidos pela Unifesp em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas em Diadema (MLB) mostram que 47 famílias conseguiram fazer só duas refeições por dia. E outras 10 tiveram comida suficiente para apenas uma refeição. A coordenadora da pesquisa no Campus Diadema, Claudia Fegadolli, conta os casos mais extremos observados durante as entrevistas.
“Em Osasco, vimos uma família vendendo tudo o que tinha para comprar alimento. Estavam a mãe e a filha conversando com a gente. Quando a filha saiu, a mãe disse: ‘ela não sabe, mas várias vezes eu falo que não estou com fome pra ela comer o que tem’. Em Diadema, temos muitas famílias que não podem comprar nada, vivem apenas de doação”, conta.
Para fazer doações para essas e outras famílias atendidas pelo movimento, você pode doar via PIX. A chave é movimentodelutanosbairros.sp@gmail.com.

As fases da fome
Dentro do mês, o acesso à comida é muito variado para as famílias em vulnerabilidade social. Quando o pagamento chega, elas conseguem garantir um pouco mais. Outro momento que abastece a geladeira e o armário é o da chegada das cestas básicas e doações de vizinhos, igrejas, familiares ou entidades.
No caso do Rai e da Maia, a ajuda veio da filha do Rai, que doou para o pai e a madrasta um botijão de gás no começo de agosto. Antes disso, eles haviam passado uma semana sem gás. Para conseguir passar pela situação, esquentavam no micro-ondas um espetinho comprado na esquina e faziam arroz numa panela elétrica que ganharam da vizinha de porta.
“Quando a gente vai ao mercado, tem que comprar o mais baratinho, que é o ovo, ou a carne mais barata que tiver. A gente não consegue mais comer salada”, conta Ana. Diabéticos, eles não podem deixar de comer uma coisinha de manhã, mas o almoço virou evento de final de semana. De segunda a sexta, comem um salgado barato na rua mesmo, enquanto Rai se apresenta.
Na semana antes da minha visita à casa da Miriam, ela tinha passado os dias sem almoçar porque o pouco que tinha era reservado para a janta. “É pão de manhã e depois eu só vou comer um arrozinho de noite. Dia 30 tem que pagar o aluguel senão a gente fica na rua”, diz.
Miriam está na esperança de receber o Auxílio Brasil. Ela conta que procurou um CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), mas só encontrou vaga em novembro para fazer seu Cadastro Único. E nem isso é sinal do benefício na conta. Afinal, a fila para receber o auxílio é gigante: em abril, havia 2,8 milhões de famílias esperando.
Ela também deu o nome na igreja católica do bairro para entrar na fila da cesta básica. E vai, quando a coluna a permite descer as escadas e subir a ladeira, ao mercadinho do bairro pegar as verduras e frutas amassadas que eles deixam para doação no fim do dia. É um pé de alface de lá que estava em sua geladeira.
As duas famílias ouvidas pela reportagem recebem auxílio também do MLB, que tem Maria Cristina Damasio como uma das organizadoras. A Cris é uma entidade na comunidade, conhece todo mundo e já deu aulas voluntárias de alfabetização para muitos adultos, inclusive para Miriam e o marido.
Ela é bolsista da Unifesp para tocar a pesquisa e fazer a ponte entre a universidade e a comunidade. Também faz corres para conseguir tudo o que precisam, seja uma cesta básica até ceder o computador da filha para ajudar o pessoal com sites do governo e mesmo criação de currículo.
Ela conta que as maiores dificuldades relatadas pelas famílias são alimentação e acesso à saúde. Cris relata ainda que as informações sobre auxílios e outros programas públicos não chegam para essas pessoas.
“Elas não têm uma direção. Então a gente tem ajudado bastante nesse encaminhamento.”
Foto: Celso Tavares/g1
G1

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