LEIA: Dinheiro público: transparência até a última ponta, por Júlio César Cardoso
No Brasil, os recursos públicos vêm da arrecadação de impostos pagos por todos nós. Por isso, é essencial que esse dinheiro seja administrado com total transparência — desde sua origem até o destino final. No entanto, essa trajetória nem sempre é clara, e muitas vezes acaba desviada de sua finalidade original.
O Tribunal de Contas da União (TCU) é o órgão responsável por fiscalizar os gastos públicos. Vinculado ao Poder Legislativo, ele atua como controle externo, verificando a legalidade, legitimidade, economicidade e eficiência das despesas. Mas há um ponto crítico: sua atuação ocorre apenas depois que o dinheiro já foi gasto. Ou seja, o TCU não tem poder para autorizar pagamentos ou bloquear liberações suspeitas — isso cabe ao Poder Executivo.
E é justamente aí que mora o problema. A ausência de fiscalização prévia abre espaço para corrupção, desvios e uso indevido das verbas públicas. O modelo atual, consagrado na Constituição, precisa ser revisto. O TCU, com sua estrutura técnica e imparcial, deveria participar também da liberação dos recursos, funcionando como um filtro antes que o dinheiro chegue às mãos de gestores locais.
Prefeituras e emendas parlamentares: os pontos frágeis — Dois exemplos emblemáticos ilustram essa fragilidade:
• Prefeituras: em muitos municípios, o dinheiro público é mal aplicado ou simplesmente desaparece. Licitações fraudulentas, empresas fantasmas e pagamentos indevidos são comuns. A solução? Que os tribunais de contas façam auditoria prévia de cada pagamento, compra ou contrato. Os prefeitos deixariam de ter acesso direto aos recursos e passariam a apenas indicar onde devem ser aplicados, com aval técnico e jurídico dos tribunais.
• Emendas parlamentares: o volume de emendas e municípios beneficiados é enorme. Mas isso não pode servir de desculpa para fiscalizar apenas por amostragem ou denúncia. Cada pagamento precisa ser auditado antes de ser feito. O contribuinte merece saber que seu dinheiro está sendo usado com honestidade.
• A propósito de emendas, deveria haver apenas emenda de Bancada, ou seja, propostas coletivas de parlamentares de um mesmo estado para projetos estruturais regionais, como rodovias, hospitais, escolas, universidades.
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Hora de repensar o modelo. O Brasil tem meios para impedir que o dinheiro público vire combustível para esquemas de corrupção. O que falta é vontade política. Se necessário, que se faça uma revisão constitucional para ampliar o papel do TCU. Porque uma coisa está clara: dinheiro público nas mãos erradas é um risco real.
Enquanto muitos municípios enfrentam ruas esburacadas, escolas precárias e falta de infraestrutura básica, o dinheiro que poderia resolver esses problemas é desviado ou mal administrado. É hora de mudar esse cenário — com mais controle, mais transparência e menos espaço para falcatruas.
Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado
Balneário Camboriú-SC



