PP, União Brasil e PL lideram envio de emendas sem identificação de autor na Câmara dos Deputados

Os partidos Progressistas (PP), União Brasil e Partido Liberal (PL) lideram o ranking de envio de emendas da Câmara dos Deputados com autoria vinculada apenas às lideranças partidárias, sem identificação dos parlamentares responsáveis. Os dados constam em relatório da organização Transparência Brasil e foram divulgados pela CNN Brasil.
Segundo o levantamento, esse modelo de indicação dificulta a identificação dos autores reais das emendas, criando um cenário de baixa transparência sobre a destinação de recursos públicos. Além dessas três siglas, também aparecem na lista Republicanos, Avante, Solidariedade e Podemos.
De acordo com a Transparência Brasil, a prática indica que os recursos são frequentemente distribuídos por diferentes deputados dentro das legendas, mas sem registro formal de autoria. “A prática sugere que a escolha do beneficiário final é feita por diversos deputados da legenda, de diferentes regiões do país, com caciques partidários se apropriando de maiores volumes para seus estados de interesse. Nenhum desses parlamentares é identificado”, afirma o relatório.
Valores e volume de indicações
O Progressistas aparece no topo do ranking, com 464 indicações que somam R$ 427,7 milhões. Em seguida, vêm União Brasil, com 303 indicações e R$ 288,7 milhões, e o PL, com 234 indicações e R$ 254,3 milhões. O Republicanos registrou 260 indicações (R$ 218,4 milhões), enquanto Avante, Solidariedade e Podemos apresentaram volumes menores.
Os dados foram reunidos a partir de documentos da Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso Nacional. Em 2025, as emendas de comissão totalizaram R$ 11,7 bilhões, sendo R$ 7,9 bilhões da Câmara e R$ 3,8 bilhões do Senado. No total, foram contabilizadas 12.231 indicações de deputados e 4.415 de senadores.
A Transparência Brasil destaca que, ao contrário da Câmara, todas as indicações do Senado estavam associadas a parlamentares identificados.
Concentração regional dos recursos
O relatório também aponta forte concentração dos recursos em estados ligados às lideranças partidárias. Em seis dos sete partidos analisados, os líderes indicaram emendas sem identificação do autor, somando R$ 143,2 milhões — integralmente destinados a seus estados de origem.
Entre os casos destacados, o União Brasil direcionou 47% das emendas de liderança ao Maranhão, base eleitoral do deputado Pedro Lucas Fernandes. Já o Solidariedade concentrou 100% dos recursos no Rio de Janeiro, estado do líder Aureo Ribeiro.
No caso do Progressistas, mais da metade dos recursos foi destinada ao Piauí, estado ligado ao senador Ciro Nogueira, presidente da legenda. O Rio de Janeiro lidera, de forma geral, o recebimento de emendas desse tipo, seguido pelo Piauí, com R$ 216,5 milhões.
Persistência do modelo em 2026
O cenário de baixa rastreabilidade se mantém em 2026. Levantamento da Transparência Brasil, com dados até 29 de maio, identificou R$ 373,8 milhões em emendas atribuídas apenas a lideranças partidárias.
Entre as mudanças, o PT passou a integrar o grupo, com R$ 107,5 milhões vinculados à liderança da sigla. Já o Republicanos concentra quase um terço das emendas desse tipo em 2026, com R$ 126,5 milhões.
“Esse quadro reforça o entendimento de que as ‘emendas de liderança’ não correspondem à cota individual dos líderes, tampouco representam uma decisão exclusiva deste parlamentar, pois a fragmentação em beneficiários de diversos entes sugere múltiplos autores ocultos”, aponta a entidade.
Falta de transparência e dados incompletos
A legislação determina que as atas das reuniões que definem a distribuição das emendas sejam públicas. No entanto, a Transparência Brasil afirma que a Câmara dos Deputados apresentou “respostas evasivas” ao ser questionada sobre esses documentos.
“Como não foi possível obter os documentos, tanto em transparência ativa quanto passiva, torna-se inviável verificar se as ‘emendas de liderança’ decorrem de consenso das respectivas bancadas e pesquisar se os autores originais das indicações de liderança estão de alguma forma identificados”, diz o relatório.
Além disso, o cruzamento de dados entre o Congresso e o Portal da Transparência revelou que R$ 821 milhões em recursos empenhados não puderam ser associados a nenhuma indicação específica, ampliando as dúvidas sobre o controle e a rastreabilidade das emendas parlamentares.
Brasil 247



