Joseph Blatter condena manobra de Trump e da FIFA para beneficiar os EUA na Copa

O ex-presidente da FIFA Joseph Blatter condenou nesta segunda-feira (6) a manobra envolvendo Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e a entidade máxima do futebol para beneficiar a seleção norte-americana na Copa do Mundo de 2026. A reação ocorreu após a FIFA suspender a punição automática do atacante Folarin Balogun, liberando o jogador para enfrentar a Bélgica nas oitavas de final, em uma decisão que ampliou a crise sobre a independência disciplinar da entidade.
Em postagem nas redes sociais, Blatter criticou diretamente a interferência política no futebol. “Cartões vermelhos não são anulados por telefonemas políticos. São revertidos por regras, evidências e instâncias independentes. Se um presidente dos Estados Unidos intervém junto ao presidente da FIFA — e um jogador é subitamente liberado antes de uma partida eliminatória da Copa do Mundo —, a pergunta se torna inevitável: Quo vadis, FIFA? O futebol jamais deve se tornar um playground do poder político”, escreveu o ex-dirigente.
A polêmica ganhou novo capítulo depois que Trump publicou em suas redes sociais um vídeo produzido com inteligência artificial em que Balogun aparece mostrando um cartão vermelho ao árbitro da partida. A postagem, em tom de deboche, foi feita poucas horas depois da decisão inédita da FIFA de suspender a punição automática imposta ao jogador norte-americano.
Balogun havia sido expulso na vitória dos Estados Unidos por 2 a 0 sobre a Bósnia e Herzegovina, após revisão do VAR em lance com Tarik Muharemovic. Segundo a ESPN, a própria FIFA havia confirmado inicialmente que não havia caminho para recurso contra o cartão vermelho, o que significaria suspensão automática para o duelo seguinte, contra a Bélgica. O Código Disciplinar da entidade prevê que uma expulsão resulta em suspensão para a partida subsequente da equipe.
A reviravolta ocorreu após Trump telefonar pessoalmente para Gianni Infantino, presidente da FIFA, pedindo a revisão da expulsão. A entidade decidiu suspender a aplicação da punição com base no artigo 27 de seu Código Disciplinar, embora tenha mantido o cartão vermelho no registro de Balogun por um período probatório de um ano. Caso o jogador cometa nova infração nesse intervalo, a suspensão poderá ser ativada, somada a eventuais novas sanções.
O vídeo compartilhado por Trump inverte simbolicamente a cena da partida: em vez de receber o cartão vermelho, Balogun aparece exibindo o cartão ao árbitro. A publicação foi interpretada como uma comemoração pública da decisão obtida após pressão política da Casa Branca, em meio à disputa eliminatória da seleção do país-sede.
Antes da postagem com inteligência artificial, Trump já havia celebrado a decisão da FIFA em sua rede Truth Social, agradecendo à entidade por “corrigir uma grande injustiça”. A Casa Branca também comemorou a liberação do atacante nas redes sociais, enquanto o técnico Mauricio Pochettino e jogadores da seleção dos Estados Unidos saudaram o retorno de Balogun ao time.
A Federação Belga de Futebol declarou estar “surpresa” com a medida e afirmou que avalia todas as opções disponíveis para contestar a decisão. A entidade belga sustenta que a liberação contradiz tanto o Código Disciplinar da FIFA quanto o regulamento específico da Copa do Mundo, que preveem suspensão automática para cartões vermelhos diretos. Segundo relatos da imprensa internacional, a federação considera que o precedente fere princípios de igualdade competitiva.
O caso extrapolou o debate esportivo e passou a envolver questões de governança, isonomia e credibilidade institucional. Para críticos da decisão, o fato de o próprio presidente dos Estados Unidos reivindicar publicamente participação na mudança e, em seguida, ironizar a arbitragem com um vídeo gerado por inteligência artificial reforça a percepção de interferência política em um processo disciplinar que deveria ser conduzido de forma autônoma.
A controvérsia coloca a FIFA sob intensa pressão às vésperas do confronto entre Estados Unidos e Bélgica. Mais do que a classificação às quartas de final da Copa do Mundo, o episódio reacendeu o debate sobre a igualdade de tratamento entre seleções e sobre a capacidade da entidade de preservar suas próprias regras diante de pressões de governos nacionais.
Com a manifestação de Joseph Blatter, a crise ganhou ainda mais peso simbólico. O ex-presidente da FIFA, que comandou a entidade entre 1998 e 2015, passou a questionar publicamente se a atual direção está protegendo a independência do futebol internacional ou permitindo que decisões disciplinares sejam contaminadas por interesses políticos do país-sede. O caso Balogun já é tratado como um dos episódios mais controversos da Copa do Mundo de 2026.

FOTO: MANDEL NGAN/REUTERS
Brasil 247

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