A “vagabundagem” de Roberto Cavalcanti, por Marcos Marinho

Eu conhecia Roberto Cavalcanti apenas de nome. Um suposto próspero empresário dono da Polyutil, fábrica de embalagens e utensílios plásticos em João Pessoa, onde à porta foi assassinado o seu primo Paulo Brandão, então diretor do Sistema Correio de Comunicação, onde era sócio e a quem veio suceder.
Era um desconhecido e, obviamente, pouco sabíamos dele a não ser que era um cara milionário e ‘bon-vivant’.
Meu primeiro contato com Roberto se deu por via telefônica e eu já era, digamos assim, empregado dele, escrevendo uma coluna diária no jornal Correio da Paraíba, onde entrei acatando convite da saudosa editora Lena Guimarães, que atendera um pedido de Zé Maranhão, governador à época.
Naquele dia que Roberto me ligou estava eu em casa, ainda cedinho, escrevendo a coluna que teria de entregar a Marcos Alfredo, editor da sucursal do Correio em Campina, antes do meio dia.
Com sua costumeira voz mansa, mais parecendo a de um diplomata licenciado, meu ainda desconhecido interlocutor não se dignou em revelar o nome e foi direto ao que queria:
“O senhor trabalha aonde?” – perguntou avexado.
E eu, antes de satisfazer-lhe a curiosidade:
“Tô falando com quem?”.
“Só quero confirmar onde o senhor trabalha, porque aqui no Correio não é, senão em vez de elogiar a concorrência deveria estar aplaudindo quem lhe paga”, disparou para só então se identificar: “Sou eu, Roberto Cavalcanti !!!”.
E desligou.
Era um Dia do Trabalho igual ao de hoje, Primeiro de Maio. Eu ainda não tinha lido o jornal, cujo exemplar só pegava por volta das onze horas quando levava a coluna do dia seguinte para Marcos Alfredo editar.
E somente horas depois pude entender a ira de Roberto: uma simples nota na minha coluna onde felicitei, pela passagem do Dia do Trabalho, aquele que como poucos, ao meu modesto ver, dignificava com extrema competência o seu mister na Rainha da Borborema, o hoje também saudoso amigo Carlos Alberto, repórter dos Diários Associados (TV Borborema e Rádio Borborema).

Repórter Carlos Alberto
Daí por diante pude crer que aquela fala mansa de Roberto nunca passara de uma casca e, por isso, passei a vê-lo como na realidade o é: um disfarçado e medroso ser que sempre trabalhou na sombra e arregimentava prepostos para socorrê-lo, como no caso do Sistema Correio onde sua melhor “muleta” por anos tinha nome: Alexandre Joubert.
Lembro esse infausto acontecimento hoje, quando a imprensa nacional expõe essa faceta vergonhosamente nada humanista do pobre homem rico que por algum tempo, substituindo o ínclito Zé Maranhão na Câmara Alta do Congresso Nacional, de lá saiu ainda mais desumano e insensível.

Por que entendo assim?
O ex-senador disse ontem, em microfones do seu Sistema de Comunicação onde ninguém pode atrever-se a lhe botar freios, que feriado de 1º de Maio é o “dia da vagabundagem”, n’outra humilhante aberração vomitada em direção a toda classe laboral do nosso sofrido Brasil.
– “E por incrível que pareça, [o feriado de amanhã é] carimbado de Dia do Trabalho. Não, é o dia da vagabundagem. Porque não é trabalho. Trabalho é você sair de casa de manhã e voltar a noite, tendo cumprido uma missão profissional. Eu sou absolutamente contrário a esse tipo de feriado”, afirmou Roberto durante programa ao vivo na sua TV Correio.
E lembrou, com invulgar orgulho: “Quando passei pelo Senado, fiz um projeto que lamentavelmente não foi acatado, que era exatamente trazer os feriados para as sextas-feiras e segundas-feiras, não dar chance ao imprensado. Conversando com um amigo empresário minutos atrás, nós comentávamos que estamos sendo sacudidos sucessivamente por feriados. Semana passada, feriado; essa semana, feriado. Então, isso atrasa demais o desenvolvimento, a automação”, prosseguiu Roberto.

O portal Metrópoles, hoje um dos mais bem acessados do País, publicou o disparate de Roberto e, de modo didático a ele ensinou:
“O Dia do Trabalhador é uma data comemorativa celebrada anualmente em 1º de maio em quase todos os países do mundo, sendo feriado em muitos deles, e tem origem em 1886, quando uma greve foi iniciada na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, com o objetivo de conquistar melhores condições de trabalho”.

EM TEMPO: Nunca fui demitido do Correio, mesmo porque nunca Roberto – nem Joubert – se dignaram a assinar minha Carteira. Foram 12 anos de rádio, jornal e TV, e de lá sai quando veio a ordem para esquecermos o nome do governador derrotado, José Maranhão, e passarmos a endeusar o eleito Ricardo Coutinho.
“Marcos Marinho, aqui ninguém morre de amores por Maranhão não”, avisou-me com voz de expulsão a chefona cumpridora de ordens Lena Guimarães.
E foi só. Como ainda hoje não me passo a certos tipos de procedimentos, no outro dia já não subi mais ao 11º andar do edifício Palomo e, em gesto de caridade, prescindi de buscar na Justiça do Trabalho os meus inegociáveis direitos.

Por Marcos Marinho
Jornalista, radialista, fundador do ‘Jornal da Paraíba’, ‘Gazeta do Sertão’ e ‘A Palavra’, exerceu a profissão em São Paulo e Brasília; Na Câmara Federal Chefiou o Gabinete de Raymundo Asfóra e em Campina Grande já exerceu o mandato de Vereador.

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