Ataque de Flávio Bolsonaro às urnas eletrônicas irrita cúpula do PL: ‘falou bobagem’
As declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com ataques à confiabilidade das urnas eletrônicas provocaram forte desconforto entre integrantes da cúpula do Partido Liberal e desencadearam uma discussão interna sobre os rumos da pré-campanha presidencial. Segundo o jornal O Globo, a avaliação predominante entre dirigentes da legenda é que o senador errou ao recolocar no centro do debate um tema diretamente associado à inelegibilidade de Jair Bolsonaro (PL).
Nos bastidores, lideranças do partido consideram que insistir na pauta das urnas eletrônicas pouco contribui para ampliar o eleitorado além da base bolsonarista e pode reforçar desgastes políticos já conhecidos. Integrantes da direção da sigla afirmaram reservadamente que Flávio estaria falando “bobagem” ao retomar um assunto que, na avaliação deles, deveria permanecer superado.
Cúpula quer campanha voltada à economia
A orientação transmitida ao senador é que concentre sua estratégia eleitoral em temas com maior potencial de diálogo com setores mais amplos do eleitorado. Entre as prioridades apontadas pelos dirigentes estão economia, segurança pública, inflação, geração de empregos e custo de vida.
Para integrantes da direção do PL, insistir na narrativa sobre o sistema eleitoral fortalece a associação entre Flávio Bolsonaro e a estratégia adotada por seu pai nas eleições de 2022, dificultando o esforço para construir uma imagem considerada mais moderada e previsível.
Inelegibilidade de Bolsonaro serve de alerta
O episódio remete ao encontro promovido por Jair Bolsonaro, então presidente da República, com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em julho de 2022. Na ocasião, Bolsonaro apresentou, sem provas, suspeitas de fraude nas urnas eletrônicas e dirigiu críticas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em junho de 2023, o TSE condenou Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, concluindo que o então presidente utilizou a estrutura do Estado para desacreditar o sistema eleitoral. O julgamento terminou com placar de cinco votos a dois pela inelegibilidade.
Segundo dirigentes do PL, embora não exista avaliação de que Flávio esteja sujeito ao mesmo tipo de punição, o episódio reabre uma discussão que a legenda preferia manter encerrada e oferece à oposição novos argumentos para relacionar o senador à estratégia que marcou a campanha presidencial derrotada de 2022.
Campanha foi surpreendida pelo discurso
O desconforto interno aumentou porque parte da equipe de campanha afirma não ter conhecimento prévio de que Flávio abordaria o tema durante um encontro com embaixadores realizado em Brasília.
Interlocutores da pré-campanha afirmam que o discurso passou por revisões, mas nem todos os integrantes do núcleo político tinham ciência de que o senador faria referências às urnas eletrônicas, à empresa venezuelana Smartmatic e ao episódio envolvendo Jair Bolsonaro e representantes diplomáticos em 2022.
Após a repercussão negativa, a campanha realizou reuniões para definir a estratégia de resposta.
TSE rebateu referência à Smartmatic
Durante o evento, Flávio Bolsonaro afirmou que muitas das máquinas utilizadas nas eleições brasileiras teriam “a mesma origem” da empresa venezuelana Smartmatic. Em seguida, recordou que seu pai foi declarado inelegível após reunião com embaixadores e defendeu o envio de observadores internacionais para acompanhar as eleições brasileiras. Ao longo da exposição, entretanto, declarou que não estava questionando o sistema eleitoral do país.
A referência à Smartmatic contraria informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em nota publicada originalmente em 2020 e atualizada em 2022, o TSE esclarece que a empresa “não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras” e nunca participou da programação dos equipamentos utilizados nas votações.
Segundo o tribunal, a Smartmatic apenas prestou serviços relacionados à conexão de dados e ao treinamento de profissionais de suporte técnico, além de ter participado, sem sucesso, da licitação posteriormente vencida pela Positivo Tecnologia para fabricação das urnas.
Núcleo jurídico vê diferenças em relação ao caso Bolsonaro
Apesar da repercussão, integrantes do núcleo jurídico da campanha entendem que há diferenças relevantes entre o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e aquele que levou à condenação do ex-presidente.
A avaliação é que o senador participou de um evento privado, organizado por uma empresa de comunicação, sem utilizar a estrutura da Presidência da República ou qualquer recurso da máquina pública. Também destacam que Flávio não ocupa cargo no Poder Executivo e declarou expressamente que não colocava em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Essa interpretação foi reforçada em nota assinada pelo coordenador-geral da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), e pela coordenadora jurídica, Maria Claudia Bucchianeri. O documento afirma que “não é verdade que o pré-candidato Flávio Bolsonaro tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil”.
Segundo a campanha, o senador apenas mencionou fatos públicos, como a reunião que levou à inelegibilidade de Jair Bolsonaro e um relatório da CIA sobre supostas irregularidades nas eleições venezuelanas, defendendo exclusivamente o fortalecimento das missões internacionais de observação eleitoral, sem colocar em dúvida a legitimidade das eleições brasileiras.
Brasil 247



