Grupo sancionado pelos EUA usou Zelle, o “Pix americano”, para lavar dinheiro, aponta PF

Uma investigação da Polícia Federal (PF) identificou que um grupo ligado ao empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo de sanções do governo dos Estados Unidos por supostos vínculos com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizava o Zelle, plataforma de transferências bancárias dos Estados Unidos, para movimentar recursos investigados como provenientes de atividades ilícitas.
Segundo o Metrópoles, a PF concluiu que o sistema de pagamentos fazia parte da estrutura utilizada para remessas internacionais de dinheiro e para operações relacionadas à lavagem de recursos. A descoberta ocorre poucos dias após os Estados Unidos anunciarem sanções contra pessoas e empresas acusadas de integrar uma rede financeira ligada à facção criminosa.
PF aponta uso do Zelle em remessas internacionais
Criado em 2016, o Zelle é uma plataforma privada de pagamentos instantâneos administrada pela Early Warning Services, empresa controlada por grandes bancos norte-americanos, entre eles Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo.
Embora seja frequentemente comparado ao Pix brasileiro pela rapidez das operações, o sistema não é administrado pelo governo dos Estados Unidos.
A plataforma ganhou projeção recente no debate político brasileiro após o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro citá-la como alternativa ao Pix em declarações relacionadas ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As autoridades brasileiras acompanham o tema com atenção após os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas, o que levantou preocupações sobre possíveis repercussões internacionais envolvendo sistemas de pagamento. Além disso, os EUA avaliam impor sanções ao Brasil por avaliarem que o PIX oferece riscos a sistemas de pagamentos estadunidenses, como os cartões de crédito.
Mensagens citam Wells Fargo e contas do Zelle
De acordo com a investigação da PF, Leandro Proença, apontado como parceiro de Victor Shimada, exerceria papel central na movimentação de criptomoedas, dinheiro em espécie e remessas internacionais.
Entre as provas reunidas pelos investigadores está uma mensagem atribuída a Leandro com o conteúdo: “Mandar la Wells / La fora ok”. Para a Polícia Federal, a mensagem faz referência ao banco Wells Fargo. Na sequência, segundo a investigação, foram enviados os dados de uma conta cadastrada no Zelle vinculada ao endereço eletrônico Ivanbrasil49@gmail.com.
Os investigadores afirmam que o e-mail pertence ao sócio-administrador da empresa Ibra Administração e Representação Ltda, Ivan Moreira Brasil, indicando, segundo a apuração, “que os valores eram remetidos ao exterior mediante contas controladas pelo mesmo grupo”.
A investigação acrescenta que Leandro operacionalizava remessas internacionais utilizando plataformas como o Zelle e serviços do Wells Fargo, empregando dados ligados à empresa Ibra e ao seu sócio.
Pagamentos de drogas também aparecem na investigação
Outro investigado citado pela Polícia Federal é Ygor Fokin Saviolli, apontado como parceiro de Shimada.
Segundo a apuração, ele também utilizava o Zelle para realizar transferências internacionais destinadas ao pagamento de drogas.
Entre as operações identificadas pelos investigadores está um depósito de US$ 10.002, realizado em junho de 2022 por meio do Zelle para uma conta do Bank of America registrada em nome de um terceiro.
EUA aplicaram sanções contra brasileiros e empresas
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa, sob a acusação de integrarem uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC.
As empresas atingidas pela medida são:
• Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda;
• Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda;
• Wave Construções Inteligentes Ltda;
• Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, de Portugal.
As sanções determinam o bloqueio de bens e ativos sujeitos à jurisdição norte-americana e proíbem cidadãos e empresas dos Estados Unidos de manter relações comerciais com os sancionados. Instituições financeiras estrangeiras que realizarem transações relevantes com os envolvidos também poderão ser alvo de sanções secundárias.
Victory Trading também é investigada em caso ligado ao Corinthians
Victor Shimada é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia, empresa investigada por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao contrato de patrocínio firmado entre o Corinthians e a casa de apostas Vai de Bet.
Sem mencionar nominalmente o clube paulista, o comunicado do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirma que Shimada foi preso pela Polícia Federal, em janeiro de 2025, por supostamente “lavar dinheiro ilícito de um clube de futebol brasileiro em um esquema fraudulento de patrocínio”.
O comunicado também afirma que a “Victory foi usada para lavar dinheiro roubado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária.”
Segundo investigação conduzida pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), a empresa teria transferido R$ 200 mil para a UJ Football Talent Intermediação, valor que posteriormente teria sido direcionado à Neoway Soluções, empresa registrada, segundo os investigadores, em nome de um laranja.
Já Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é apontada como responsável por organizar a logística de recolhimento de dinheiro em espécie.
Defesa nega irregularidades
Em nota enviada ao Metrópoles, a defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada afirmou que ainda não teve acesso aos documentos oficiais que fundamentaram as sanções impostas pelas autoridades norte-americanas.
“Não obstante, Victor Shimada nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro. A situação será analisada com a cautela e a profundidade que o caso exige, após o efetivo acesso aos documentos que embasaram a medida e em conjunto com os profissionais que atuarão perante as autoridades competentes”, destaca a nota.
A reportagem informou que não localizou as defesas dos demais investigados citados no inquérito.
Brasil 247



