Irmã de Adélio prepara quarto para recebê-lo após Justiça transferir curatela para a família

A irmã mais nova de Adélio Bispo de Oliveira, Maria das Graças Ramos de Oliveira, comemorou a decisão da Justiça de Mato Grosso do Sul de transferir para a família a curatela do irmão e já começou a preparar um quarto para recebê-lo na casa que pertenceu aos pais dos dois.
A decisão representa uma mudança importante em uma batalha que Maria das Graças trava há anos para poder acompanhar de perto a situação do irmão, mantido no Presídio Federal de Campo Grande.
“Na única visita (presencial) que consegui fazer em quase oito anos, ele me disse que só sairia do presídio morto, já que estavam dificultando a vida dele. Essa decisão nos dá esperança de que ele esteja errado”, afirmou Maria das Graças.
A visita mencionada por ela foi acompanhada pelo Brasil 247. Na ocasião, Adélio manifestou temor em relação à própria segurança e disse à irmã: “Querem me ver morto”. A reportagem publicada pelo 247 também registrou que ele acusava seu antigo advogado, Zanone Júnior, de atuar contra seus interesses.
Paralelamente à decisão sobre a curatela, a Justiça Federal em Campo Grande autorizou uma nova visita da Equipe de Avaliação e Acompanhamento das Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental em Conflito com a Lei (EAP-Desinst/SES-MS) ao presídio.
A equipe deverá elaborar relatório sobre o estado de saúde de Adélio e indicar alternativas para seu tratamento fora do estabelecimento prisional.
Em uma primeira visita, realizada em junho, Adélio recusou-se a responder às perguntas dos profissionais.
A nova tentativa ocorre em um momento no qual sua permanência em estabelecimento penitenciário entra em conflito com a política antimanicomial estabelecida pelo Conselho Nacional de Justiça para pessoas com transtorno mental submetidas a medidas de segurança.
A discussão sobre a retirada de Adélio do sistema penitenciário não é nova. Em fevereiro de 2023, o 247 informou que a Defensoria Pública da União havia recorrido à Justiça para que ele fosse retirado da cadeia, com base, entre outros elementos, em laudos médicos que apontavam a necessidade de tratamento psiquiátrico.
Posteriormente, decisão da Justiça Federal em Campo Grande determinou que Adélio deixasse o sistema penitenciário, observando a política antimanicomial. A possibilidade mencionada à época era de tratamento em unidade hospitalar do SUS, seguido, conforme sua evolução, de atendimento ambulatorial próximo à família.
Há, porém, um elemento considerado importante para que a nova avaliação seja realizada com sucesso.
A Justiça Federal concordou com pedido da Defensoria Pública da União para que, antes da visita da equipe — ou concomitantemente a ela —, Adélio tenha uma conversa com o defensor público da União Welmo Rodrigues, que acompanha seu caso.
A medida busca criar condições para que Adélio aceite conversar com os profissionais encarregados da avaliação.
Welmo passou a atuar no caso depois que Adélio manifestou rejeição ao advogado Zanone Júnior. Reportagens anteriores do 247 registraram que a Defensoria assumiu sua defesa em 2020, após Adélio reclamar, por carta, que o advogado contrariava seus interesses.
O nome completo do defensor é Welmo Edson Nunes Rodrigues. Em 2023, ele já havia sustentado perante a Justiça que a permanência de Adélio no sistema penitenciário contrariava as conclusões dos laudos psiquiátricos e poderia agravar seu estado de saúde.
“O Tuco tem medo”
Maria das Graças afirma que a desconfiança do irmão não se restringia ao advogado.
Segundo ela, Adélio também demonstrava temor em relação a profissionais do próprio presídio. Uma das poucas pessoas em quem confiaria seria justamente Welmo.
“O Tuco tem medo de que o envenenem ou façam coisa pior a ele”, disse Maria das Graças, usando o apelido familiar do irmão.
O temor de Adélio em relação a medicamentos já havia aparecido anteriormente no acompanhamento de seu caso. Reportagem do 247 registrou que, segundo Welmo, Adélio se recusava a tomar medicação por não se sentir seguro em relação ao que lhe era ministrado.
Maria das Graças considera que esse medo não é razão para mantê-lo no presídio. Para ela, o tratamento ambulatorial ou hospitalar representaria uma alternativa mais adequada.
“Se é para fazer mal a ele, já teriam feito no presídio”, afirmou.
A transferência da curatela para a família também altera uma situação que vinha sendo objeto de disputa judicial.
Em 2023, Maria das Graças tentou obter a curatela provisória do irmão, mas a Justiça de Mato Grosso do Sul não acolheu naquele momento seu pedido. O caso foi acompanhado pelo 247.
No mesmo ano, novo laudo psiquiátrico ao qual o 247 teve acesso concluiu que Adélio apresentava transtorno delirante e era incapaz para os atos da vida civil.
A irmã continuou tentando manter contato. Em carta aberta divulgada posteriormente, reclamou da falta de notícias e das dificuldades para realizar novas visitas.
Mais recentemente, em junho deste ano, Maria das Graças voltou a falar ao 247 sobre o irmão e sobre a visita virtual que havia conseguido realizar.
Agora, com a mudança da curatela e a nova avaliação determinada pela Justiça Federal, ela vê pela primeira vez uma possibilidade concreta de que Adélio possa deixar o presídio e receber tratamento em outro ambiente.
Na casa da família, o quarto começa a ser preparado.
É ali que Maria das Graças espera receber o irmão que, durante a única visita presencial que conseguiu fazer, lhe disse acreditar que jamais sairia vivo da penitenciária.
Foto: Joaquim de Carvalho E Reprodução
Por Joaquim de Carvalho
Colunista do 247



