O tabuleiro nacional: a fatura fiscal, o custo de vida e a eleição de 2026, por Raoni Rodrigues
A análise política no Brasil costuma se perder na espuma dos discursos, nos bastidores partidários e na pirotecnia dos palanques. Contudo, quem observa a história das sucessões presidenciais sabe que o verdadeiro eleitorado não vota apenas por simpatia ideológica; ele vota movido pela realidade do bolso. A poucos meses do pleito, a corrida ao Planalto deixa as promessas abstratas de lado e expõe a fricção direta entre a deterioração da economia real e a fatura de uma política fiscal que perdeu o rumo.
A herança da desordem fiscal e a fatura no bolso do cidadão
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a este momento decisivo enfrentando o seu maior e mais implacável adversário: os próprios números da economia. A promessa inicial de estabilidade e crescimento desmanchou-se diante de uma condução fiscal retrógrada e marcada pelo expansionismo descontrolado de gastos. O Estado brasileiro consolidou uma dinâmica perigosa em que gasta sistematicamente muito mais do que arrecada, abrindo um buraco intransponível nas contas primárias.
Esse descontrole estrutural teve um efeito em cadeia devastador. Para tentar cobrir o rombo monumental das contas públicas e os déficits recorrentes nas empresas estatais, a gestão federal optou pelo caminho mais fácil e danoso: a sanha arrecadatória. Houve um ciclo contínuo de aumento de impostos ao longo dos anos, asfixiando o setor produtivo, encarecendo serviços essenciais e elevando os preços até mesmo no setor de tecnologia, que sofre com novas traves tributárias. Com a dívida pública galopando em direção a patamares alarmantes, a credibilidade fiscal do país ruiu.
O resultado dessa arquitetura econômica desastrosa desaba diretamente sobre o cotidiano da população:
Inflação e Custo de Vida: A inflação persistente corrói o poder de compra, mantendo a feira cara e o preço dos combustíveis pesando como uma bigorna no orçamento das famílias e dos transportadores.
Juros e Crédito Sufocado: Para tentar conter a escalada inflacionária gerada pelo próprio excesso de gastos do governo, o Banco Central é forçado a manter a taxa Selic em patamares elevadíssimos. Essa taxa nas alturas paralisa os financiamentos, encarece o crédito para o cidadão e sufoca o empreendedor.
Carga Tributária Insuportável: A sucessão de elevações de impostos acumulada ao longo da gestão transformou a máquina pública em um peso insuportável para quem produz.
A propaganda oficial tenta maquiar a realidade com narrativas, mas o eleitor comum percebe o empobrecimento diário no caixa do supermercado e na impossibilidade de acessar crédito, transformando a economia no principal fator de desgaste da atual gestão.
O cálculo da oposição e os desafios de Flávio
No campo da oposição, a consolidação do nome do senador Flávio Bolsonaro pelo PL reposiciona as peças no tabuleiro, mas longe de ser um movimento sem fricção. A estratégia do grupo conservador aposta no apelo da herança política de Jair Bolsonaro e na catalisação da insatisfação popular com o custo de vida. Contudo, os bastidores revelam um cenário de pragmatismo e desafios estratégicos evidentes.
Apesar da retaguarda de governadores de peso, como Tarcísio de Freitas em São Paulo, Flávio ainda enfrenta a necessidade de vencer resistências em setores do Centrão e do mercado financeiro, que monitoram de perto os altos índices de rejeição das pesquisas e a capacidade do senador de dialogar com o eleitorado moderado. A manutenção das pré-candidaturas de Romeu Zema e Ronaldo Caiado no primeiro turno reflete justamente a existência dessa fatia de eleitores que busca alternativas fora da polarização direta.
O cálculo eleitoral da direita, portanto, não se fiará em adesões automáticas, mas em costuras pragmáticas. Para converter a insatisfação fiscal em capital eleitoral, o campo oposicionista dependerá de pontes sólidas com o centro no segundo turno e da habilidade de Flávio em se apresentar não apenas como uma reação ao PT, mas como um projeto viável de governabilidade e estabilidade.
O veredito das urnas
A eleição de 2026 não será resolvida com discursos vazios ou pirotecnia de palanque. Ela será decidida na ponta do lápis, na fatura do cartão e no caixa do supermercado. O desgaste fiscal acumulado ao longo de anos de gastos desmedidos, juros proibitivos e carga tributária escorchante transformou a máquina pública em uma vidraça estilhaçada. Para o eleitor brasileiro, a escolha nas urnas será um veredito direto sobre quem tem competência técnica e responsabilidade para consertar o país e devolver a previsibilidade à economia.
Por Raoni Rodrigues
Com uma década de experiência na linha de frente da coordenação de campanhas políticas, Raoni Rodrigues, formado em Direito e Gestão de Recursos Humanos, com especialização em Marketing e Comunicação com o Mercado e pós-graduando em Ciência Política e Processo Civil, assina análises sobre os bastidores da política paraibana e a engenharia eleitoral brasileira.



