Racha na campanha Bolsonaro: Flávio que abandonar Mário Frias, mas Eduardo pretende defender o deputado

A operação da Polícia Federal contra o deputado Mário Frias (PL-SP) abriu uma nova crise na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e expôs divergências entre alas do bolsonarismo sobre como reagir às suspeitas envolvendo recursos públicos ligados ao filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL).
Segundo O Globo, aliados próximos de Flávio avaliam que Frias deve responder sozinho caso sejam comprovadas irregularidades no uso de emendas parlamentares destinadas a projetos associados à produção. A estratégia do núcleo do candidato é individualizar o problema para evitar que a investigação contamine politicamente a campanha a menos de 30 dias do primeiro turno.
No entorno de Flávio, a disposição de não “comprar a briga” de Frias já circulava desde episódios anteriores envolvendo o deputado, incluindo suspeitas relacionadas a um suposto esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Câmara. Agora, com a PF apontando Frias como integrante do chamado “núcleo político” de uma organização investigada por suspeita de desvio de recursos públicos, a avaliação ganhou peso eleitoral.
Aliados tentam isolar Frias
A orientação dada a Flávio Bolsonaro é defender Dark Horse, mas separar o filme da situação individual de Frias e dos demais alvos da operação. Um aliado do senador resumiu a posição do grupo ao afirmar que, se Frias tiver feito “rolo com emendas”, terá que “se lascar”.
Foi essa a linha adotada por Flávio Bolsonaro nesta quinta-feira. Em agenda em Roraima, o senador afirmou que Dark Horse não recebeu dinheiro público, atacou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e classificou a operação como uma tentativa de “interferência política” na eleição. Ao falar sobre o caso, porém, não mencionou Frias nem saiu em defesa direta do parlamentar.
PF apura emendas e pagamentos ligados ao filme
A Polícia Federal investiga suspeitas de desvio de recursos públicos federais, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e organização criminosa. De acordo com a apuração, Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares, em 2024, ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, responsável pela produção de Dark Horse.
A investigação também identificou o envio de R$ 645 mil por Frias à Go Up Entertainment, produtora do filme, em período que coincidiu com as gravações da obra. Segundo a PF, os pagamentos chamaram atenção pela proximidade com despesas como hospedagem e alimentação durante as filmagens.
A operação, autorizada pelo ministro do STF Flávio Dino, cumpriu 49 mandados em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Além de Frias, foram alvos a empresária Karina Gama, o ex-marido dela e um ex-chefe de gabinete do deputado. Dino também determinou que os investigados não deixem o país, não mantenham contato entre si e entreguem seus passaportes.
Cálculo eleitoral pesa na reação da campanha
No núcleo de Flávio, há a avaliação de que o impacto político poderia ter sido maior. Frias chegou a ser cogitado para disputar o Senado por São Paulo na montagem da chapa, mas acabou preterido pelo presidente da Assembleia Legislativa paulista, André do Prado.
Aliados do senador consideram agora que a escolha evitou que a operação atingisse diretamente um dos principais palanques estaduais da candidatura. Ainda assim, o caso volta a colocar Dark Horse no centro da disputa eleitoral e cria uma nova frente de desgaste para Flávio.
A preocupação cresce porque o filme é alvo de duas investigações no STF. A apuração relatada por Flávio Dino trata do possível uso irregular de emendas parlamentares e recursos públicos. Outra investigação, sob relatoria de André Mendonça, apura recursos que Daniel Vorcaro teria destinado à produção após pedido de Flávio Bolsonaro e investiga o caminho percorrido pelo dinheiro.
Ala de Eduardo sinaliza defesa de Frias
A tentativa de separar Frias da campanha pode esbarrar na posição de aliados ligados ao ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro. Frias é próximo do filho mais ideológico do ex-mandatário e interlocutores dessa ala indicam que Eduardo tende a assumir uma defesa mais enfática de Frias.
O deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG), que se define como “orgulhosamente eduardista”, publicou uma mensagem de solidariedade ao parlamentar após a operação.
“Deixo aqui registrada a minha solidariedade ao deputado Mário Frias, que fez um filme maravilhoso sobre o atentado contra Jair Bolsonaro, Dark Horse, e que agora é alvo de operações da Polícia Federal”, afirmou Caporezzo.
O deputado estadual também atacou a corporação e disse que qualquer pessoa de direita que considerasse correta a ação deveria ser “exorcizada de Brasília”.
Eduardo Bolsonaro reagiu de forma dura à operação nas redes sociais. Em uma publicação, afirmou que o episódio não seria uma ação regular da Polícia Federal, mas de uma suposta “quadrilha totalitária” voltada a perseguir adversários políticos. Em outra postagem, classificou como “extorsão na cara dura” a atuação dos investigadores ao comentar a apreensão de documentos.
Até o momento, Eduardo não fez uma defesa específica das condutas atribuídas a Frias. No entanto, pessoas próximas afirmam que a tendência é que ele saia em defesa do deputado.
Disputa interna ganha novo capítulo
A diferença de postura em relação a Frias ocorre em meio a uma disputa mais ampla sobre os rumos da candidatura de Flávio Bolsonaro. Eduardo e Carlos Bolsonaro vêm demonstrando incômodo com o espaço ocupado por nomes que consideram distantes do núcleo ideológico do bolsonarismo.
Carlos expôs o desconforto nas redes sociais ao afirmar que Flávio precisa compreender que seu crescimento eleitoral se deve ao pai, à rejeição a decisões do Judiciário e ao desgaste do governo Lula. Em seguida, fez um alerta sobre a influência do entorno do candidato.
“Qualquer um de seu entorno que tente levá-lo para qualquer outra linha de raciocínio o afasta de sua base e o torna refém pós-eleitoral, como o sistema deseja”, disse Carlos.
Segundo interlocutores, a crítica tinha como um dos alvos Daniella Marques, responsável pela formulação do programa econômico da candidatura. Ex-presidente da Caixa e ex-assessora de Paulo Guedes, Daniella ganhou espaço nas últimas semanas, com discursos em atos importantes, participação em transmissões ao lado de Flávio Bolsonaro e agenda própria de eventos e viagens.
Uma ala do bolsonarismo critica o protagonismo da economista e a identifica com setores do mercado financeiro considerados incompatíveis com a linha ideológica do movimento.
Crise ocorre em momento sensível para Flávio
A disputa por influência se intensificou no momento em que o senador passou a enxergar possibilidade real de vitória. A última rodada da Quaest mostrou empate numérico entre o senador e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, com 41% para cada um.
Brasil 247



