Trump critica vencedora do Nobel da Paz e diz que ele deveria ter vencido o prêmio: ‘Que absurdo!’

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a criticar a escolha do Nobel da Paz de 2026 na madrugada deste sábado (10). Em publicação na rede Truth Social, o republicano atacou a jurista sul-africana Navi Pillay, vencedora do prêmio, e afirmou que ele próprio deveria ter sido laureado.
Pillay ajudou a garantir, em 1973, o direito de presos políticos mantidos na Ilha Robben, na África do Sul, de ter acesso a advogados. Entre eles estava Nelson Mandela, que cumpria pena na prisão durante o regime do apartheid.
“Os Estados Unidos da América, representados por mim, como seu presidente, deveriam ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, mas não receberam”, escreveu Trump. Em outra publicação reiterou: “Que absurdo!”.
O presidente afirmou ter “resolvido oito guerras”, estar perto de encerrar outros dois conflitos e ter garantido a liberdade de reféns e presos políticos. Também disse ter impedido o Irã de desenvolver uma arma nuclear e criticou o Comitê Norueguês do Nobel, classificando a decisão como “uma mancha inesquecível da Noruega”.
As declarações sobre os conflitos refletem a versão de Trump sobre sua atuação diplomática. A resolução de disputas internacionais não significa, necessariamente, que todos os conflitos tenham sido encerrados de forma definitiva.
“Na verdade, eu deveria ter ganhado oito Prêmios Nobel da Paz, não apenas um”, afirmou.
➡️ Os oito conflitos citados por Trump são: Camboja e Tailândia; Kosovo e Sérvia; República Democrática do Congo e Ruanda; Paquistão e Índia; Israel e Irã; Egito e Etiópia; Armênia e Azerbaijão; e Israel e Hamas.
Críticas foram direcionadas
Ao atacar diretamente a vencedora do Nobel, Trump afirmou que “ninguém a conhecia” e disse que ela “obviamente odeia Israel”.
Pillay presidiu uma comissão independente de inquérito da ONU que concluiu, em 2025, que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza. A conclusão foi rejeitada por Israel e rechaçada por Washington. Não somente: a jurista também foi juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) nos anos 2000 e ocupou o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
A atuação de tribunais internacionais está entre os pontos de atrito entre o governo Trump e instituições multilaterais. E, Na sexta-feira (9), horas após o anúncio do Nobel da Paz, os Estados Unidos anunciaram novas sanções contra o TPI. A medida busca pressionar a Corte e pode afetar pessoas e organizações que prestam serviços ou colaboram com o tribunal.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, justificou as sanções com o que chamou de ameaças aos cidadãos dos Estados Unidos, em referência à possibilidade de americanos serem alvo de processos internacionais. “Ou o TPI acabará com suas ameaças, ou nós acabaremos com o TPI”, afirmou Rubio. O secretário também pediu que aliados dos Estados Unidos pressionem a Corte.
“O Prêmio Nobel foi concedido hoje a uma pessoa liberal que trabalha nas Nações Unidas, de quem ninguém nunca ouviu falar. Em todas as guerras que resolvi, nunca falei com as Nações Unidas — elas não me ajudaram em nada”, escreveu em seu desabafo.
Nobel da Paz como recado internacional
A escolha de Navi Pillay também foi apresentada pelo Comitê Norueguês do Nobel como uma mensagem em defesa da ordem jurídica internacional. Questionado por uma jornalista se a premiação era um recado ao mundo, o presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes, afirmou, sem citar Trump, que o prêmio era um sinal “àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”.
No comunicado, o comitê destacou a trajetória da jurista na defesa dos direitos humanos e do direito internacional. “O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira”, afirmou Frydnes.
Nascida em Durban, na África do Sul, em uma família de origem tâmil indiana, Pillay construiu sua carreira jurídica durante o apartheid, enfrentando a discriminação racial e as barreiras impostas às mulheres. Entre os principais marcos de sua trajetória estão:
• Defesa de presos políticos: ajudou a garantir o acesso de presos da Ilha Robben, incluindo Nelson Mandela, a advogados, em 1973;
• Pioneirismo na Justiça sul-africana: tornou-se a primeira mulher não branca a abrir um escritório de advocacia na província de Natal e, posteriormente, foi nomeada para a Suprema Corte da África do Sul;
• Tribunal para Ruanda: presidiu o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, que julgou crimes cometidos durante o genocídio de 1994;
• Direitos humanos na ONU: foi alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos;
• Investigação sobre Gaza: presidiu a comissão independente de inquérito da ONU que concluiu, em 2025, que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza.
Pillay é a 21ª mulher a receber o Nobel da Paz, em um total de 144 laureados individuais e organizações, conforme a contagem histórica do prêmio. A honraria inclui uma medalha, um diploma e um valor em dinheiro de 11 milhões de coroas suecas.
Foto: Fabrice Coffrini/AFP
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