Vítima de amigo de Eduardo Bolsonaro diz ter horas gravadas sobre a corrupção do governo Milei, na Argentina

Nadia Beller, baleada por sicários contratados por Fernando Cerimedo, contratado pelo PL e pelo bolsonarismo para contestar as urnas eletrônicas, diz ter provas de que Karina Milei recebia propinas na Argentina enquanto o povo passa fome
A prisão na Bolívia do consultor argentino Fernando Cerimedo, um dos operadores digitais mais influentes da extrema direita latino-americana, abriu uma crise que ultrapassa o atentado a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller. Do hospital onde se recupera, a advogada afirmou possuir horas de gravações nas quais Cerimedo teria relatado episódios de corrupção no governo de Javier Milei, incluindo o escândalo dos supostos “3% para Karina”, relacionado à antiga Agência Nacional de Deficiência (Andis). O escândalo faz referência a Karina Milei, irmão do mandatário argentino de extrema direita Javier Milei.
Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira (20) pelo jornal argentino Página/12, Beller afirmou que Cerimedo conversou com ela “muitas vezes sobre corrupção” no governo Milei. Ela declarou possuir gravações com mais de uma hora de duração, armazenadas em diferentes dispositivos, e disse estar disposta a entregá-las à Justiça argentina.
A revelação ganhou peso porque Cerimedo não é apenas um consultor argentino. Sua trajetória conecta diferentes núcleos da direita e da extrema direita sul-americana: trabalhou na campanha de Javier Milei, aproximou-se do bolsonarismo no Brasil, assessorou o presidente boliviano Rodrigo Paz e atuou em campanhas e redes políticas de diferentes países da região.
A prisão de um operador com trânsito entre esses grupos coloca sob pressão uma rede política transnacional construída nos últimos anos por consultores, influenciadores, empresários de comunicação e estrategistas digitais que atravessam fronteiras e trabalham para diferentes governos e candidatos.

Beller sobreviveu a três tiros
Cerimedo foi detido na madrugada de terça-feira (18/8), no aeroporto internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, poucas horas depois de Beller sofrer um atentado.
Dois homens vestidos como entregadores chegaram de motocicleta ao local onde a advogada estava e abriram fogo. Beller foi atingida por três disparos e sobreviveu. Imagens de câmeras de segurança registraram a movimentação dos atacantes antes e depois dos tiros.
A Promotoria boliviana acusa Cerimedo de ser o autor intelectual de uma tentativa de feminicídio e pediu 180 dias de prisão preventiva. Os investigadores ainda procuram os autores materiais do ataque. Cerimedo nega a acusação. Sua defesa sustenta que Beller teria organizado um “autoatentado”, versão que cabe à Justiça boliviana avaliar diante das provas reunidas na investigação.
Portanto, embora Beller acuse diretamente o ex-companheiro de ter contratado os homens que atiraram contra ela, a autoria intelectual do atentado ainda é objeto de investigação e não pode ser tratada como fato definitivamente estabelecido.

“3% para Karina”
O caso policial ganhou dimensão política quando Beller começou a falar sobre o que afirma ter ouvido de Cerimedo durante o relacionamento.
Ao Página/12, ela disse que o consultor teria descrito o governo Milei como “uma panela de pressão repleta de corrupção”. Segundo seu relato, Cerimedo falava particularmente de Karina Milei, irmã do presidente argentino e secretária-geral da Presidência.
Beller também afirmou que Cerimedo e sua ex-mulher, Natalia Basil, teriam participado do vazamento dos áudios atribuídos ao ex-diretor da Andis Diego Spagnuolo, que deram origem a um dos maiores escândalos políticos do governo Milei.
Nas gravações atribuídas a Spagnuolo, havia referências a supostas propinas envolvendo compras de medicamentos e ao chamado “3% para Karina”. As alegações são objeto de investigação judicial e não equivalem a uma condenação de Karina Milei.
A deputada argentina Marcela Pagano pediu que Beller seja ouvida na investigação da Andis. O pedido está sob avaliação do procurador Franco Piccardi. Segundo o Página/12, a investigação já alcança empresários e ex-funcionários acusados de crimes como associação ilícita, corrupção, fraude contra o Estado e negociações incompatíveis com a função pública.

O homem que ajudou a atacar as urnas brasileiras
Para o Brasil, o nome de Fernando Cerimedo está longe de ser desconhecido.
Durante as eleições presidenciais de 2022, o argentino tornou-se um dos principais propagadores internacionais das falsas acusações de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras.
Em 4 de novembro daquele ano, poucos dias depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro, Cerimedo realizou pelo La Derecha Diario a transmissão intitulada “Brazil Was Stolen” — “O Brasil foi roubado” —, que alcançou mais de 400 mil visualizações.
Ele apresentou uma suposta investigação segundo a qual modelos antigos de urnas teriam registrado comportamento eleitoral diferente das máquinas fabricadas em 2020, insinuando manipulação da votação.
A tese foi desmentida pela Justiça Eleitoral. Todos os modelos de urnas utilizados na eleição haviam sido submetidos aos mecanismos de fiscalização e auditoria.
Posteriormente, a Polícia Federal identificou a circulação do material de Cerimedo entre militares envolvidos nas articulações investigadas após a eleição. Segundo relatório da PF, sites estrangeiros foram utilizados para espalhar as acusações contra o sistema eleitoral e contornar restrições impostas à desinformação no Brasil.
Cerimedo chegou a ser indiciado pela Polícia Federal como integrante do chamado “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”. A Procuradoria-Geral da República, entretanto, decidiu não denunciá-lo, por entender que a investigação não conseguiu demonstrar que ele tinha conhecimento e adesão ao projeto golpista

A conexão com Eduardo Bolsonaro
A aproximação entre Cerimedo e Eduardo Bolsonaro se intensificou justamente durante a eleição brasileira de 2022.
Em outubro, às vésperas do segundo turno, Cerimedo recebeu Eduardo em Buenos Aires e participou da organização de encontros do então deputado brasileiro com lideranças da direita argentina, incluindo Javier Milei e Victoria Villarruel.
A agenda era oficialmente apresentada como missão parlamentar, mas incluiu atividades relacionadas à campanha de Jair Bolsonaro. Segundo a Agência Pública, a própria estrutura ligada a Cerimedo participou da organização da visita.
Há também um vínculo financeiro documentado entre a estrutura ligada ao argentino e a campanha de Eduardo Bolsonaro: Giovanni Larosa, funcionário relacionado a Cerimedo e correspondente do La Derecha Diario no Brasil, recebeu R$ 3,9 mil da campanha de reeleição de Eduardo para serviços de divulgação de propaganda e apoio eleitoral. Larosa acompanhou o parlamentar na viagem à Argentina.
Não há, contudo, evidência pública suficiente nas fontes consultadas para afirmar que o próprio Cerimedo tenha sido formalmente contratado pelo PL para produzir o material contra as urnas.
O que está documentado é sua proximidade com Eduardo Bolsonaro, sua participação na articulação entre grupos políticos brasileiros e argentinos e seu protagonismo posterior na divulgação das acusações falsas contra o sistema eleitoral brasileiro.

De Bolsonaro a Milei
A atuação brasileira foi apenas uma etapa da expansão regional de Cerimedo.
Na Argentina, ele teve papel relevante na estratégia digital que levou Javier Milei à Presidência em 2023. Antes disso, construiu uma estrutura empresarial dedicada a marketing político, tecnologia e comunicação e tornou-se um dos responsáveis pelo La Derecha Diario.
Em entrevista concedida em 2023 e recuperada pelo El País nesta quinta-feira, Cerimedo admitiu utilizar trolls, contas falsas e campanhas negativas para interferir na conversação política digital.

Sua influência ultrapassou Argentina e Brasil.
O consultor circulou por campanhas e governos da direita latino-americana, transformando-se em exemplo de um modelo político no qual estrategistas digitais não precisam ocupar formalmente cargos públicos para exercer influência sobre presidentes, candidatos e estruturas partidárias.

Cerimedo também assessorava Rodrigo Paz
Na Bolívia, Cerimedo tornou-se assessor direto do presidente Rodrigo Paz.
O governo boliviano reconheceu que ele prestava consultoria ao presidente, embora afirmasse que não integrava oficialmente a estrutura estatal. Em julho, o então ministro da Presidência José Luis Lupo declarou que Cerimedo trabalhava diretamente com Paz e que sua remuneração vinha de “recursos externos”, e não do Estado boliviano.
Reportagens locais e internacionais apontam que Cerimedo ganhou influência na estratégia política e de comunicação do governo. O próprio Paz chegou a explicar sua proximidade com o argentino dizendo que ele havia sido professor de sua filha.
Essa condição tornou sua prisão politicamente explosiva.
O homem investigado como possível mandante do ataque contra Beller não era um consultor isolado, mas alguém com acesso ao núcleo presidencial boliviano e relações construídas em diferentes governos e movimentos políticos da região.

Um operador transnacional da extrema direita
A trajetória ajuda a explicar por que a prisão de Cerimedo pode produzir consequências muito além da Bolívia.
O El País descreveu nesta quinta-feira um fenômeno político no qual consultores, estrategistas digitais e influenciadores circulam entre países, compartilhando métodos, contatos e narrativas e atuando como pontes entre lideranças da nova direita latino-americana.
Cerimedo é um dos exemplos mais evidentes desse sistema.
Ele esteve próximo do bolsonarismo brasileiro, trabalhou para Milei, assessorou Rodrigo Paz e manteve conexões com movimentos políticos de outros países. No Brasil, ajudou a disseminar alegações falsas contra as urnas; na Argentina, integrou a máquina eleitoral e digital libertária; na Bolívia, passou a trabalhar diretamente com o presidente.
A eventual abertura de seus arquivos, celulares, mensagens e relações financeiras pelas autoridades bolivianas poderá revelar a extensão dessas conexões. Por enquanto, porém, qualquer consequência regional mais ampla permanece uma possibilidade política, não um fato comprovado.

O custo social da crise argentina
As denúncias surgem num momento de dificuldades econômicas persistentes para parcelas expressivas da população argentina.
Os números oficiais não sustentam a afirmação de que o país esteja atualmente vivendo “uma das maiores depressões econômicas de sua história”. O quadro social, contudo, continua grave.
Segundo o Indec, 28,2% da população dos 31 principais aglomerados urbanos estava abaixo da linha da pobreza no segundo semestre de 2025, enquanto 6,3% vivia abaixo da linha de indigência. Isso representava aproximadamente 8,47 milhões de pessoas pobres e 1,88 milhão de indigentes apenas no universo pesquisado.
Estimativas mais recentes do Observatório da Dívida Social Argentina, da Universidade Católica Argentina, indicaram uma reversão parcial da melhora: a pobreza teria voltado a subir para 30% no primeiro trimestre de 2026, com cerca de 1,8 milhão de pessoas entrando novamente nessa condição entre o terceiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre deste ano.
O estudo apontou deterioração dos rendimentos, aumento da informalidade e da subocupação e maior pressão das despesas fixas sobre as famílias. A informalidade chegou a 44,2% dos ocupados na estimativa citada pela instituição.
É nesse cenário social que voltam ao centro do debate argentino as acusações sobre a Andis e os supostos pagamentos de propina envolvendo recursos públicos destinados à compra de medicamentos.

Uma prisão com potencial para atravessar fronteiras
O atentado contra Nadia Beller começou como uma investigação criminal em Santa Cruz de la Sierra, mas rapidamente atingiu três países.
Na Bolívia, coloca sob escrutínio um consultor com acesso direto ao presidente Rodrigo Paz.
Na Argentina, pode acrescentar uma nova testemunha e possíveis gravações à investigação sobre a Andis e as acusações envolvendo o círculo de Javier Milei.
No Brasil, reabre o histórico de atuação de Cerimedo ao lado do bolsonarismo e sua participação na campanha internacional de desinformação que tentou desacreditar o resultado das eleições presidenciais de 2022.
O alcance político definitivo da prisão dependerá agora das provas produzidas pela Justiça boliviana e do conteúdo das gravações que Beller afirma possuir.
Se esse material for entregue às autoridades e considerado autêntico, o processo poderá ajudar a esclarecer não apenas as acusações feitas pela sobrevivente, mas também como um operador político sem mandato eletivo conseguiu acumular acesso e influência em diferentes núcleos da direita e da extrema direita latino-americana.

Foto: Reprodução/Redes Sociais/Reuters
Brasil 247

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