Delegado da PF afastado por Mendonça denunciou esquema ilegal de Bolsonaro, Anderson Torres e PRF na Bahia

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinou, nesta terça-feira (8), o afastamento preventivo cautelar do delegado da Polícia Federal Leandro Almada da Costa do cargo de Diretor de Inteligência Policial (DIP) da PF. A medida, que também atingiu o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. Almada foi peça-chave em investigações de expressivo impacto político, denunciando tentativas de interferência eleitoral no governo de Jair Bolsonaro (PL) e atuando de forma decisiva na elucidação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
A atuação mais marcante do delegado no enfrentamento a ingerências políticas deu-se durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando chefiava a Superintendência Regional da PF na Bahia. Em depoimento prestado à Polícia Federal em maio de 2023, Almada revelou os bastidores de uma reunião realizada às vésperas do pleito, na qual o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, acompanhado do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes, tentou compelir a Polícia Federal a realizar operações ostensivas conjuntas com a Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Na ocasião, a cúpula do Ministério da Justiça do governo Bolsonaro apresentou uma lista direcionada de municípios baianos — reconhecidos como redutos eleitorais favoráveis à oposição — alegando a necessidade de combater uma suposta compra de votos. No entanto, Anderson Torres e seus assessores não apresentaram qualquer relatório pericial, prova ou indício formalizado para embasar as suspeitas. Diante da manobra destinada a criar blitze e dificultar o tráfego de eleitores no Nordeste, Almada recusou-se formalmente a executar a ação ostensiva conjunta, classificando a proposta como manifestamente “inadequada” e mantendo o planejamento de segurança original. Suas declarações converteram-se em provas fundamentais nos inquéritos sobre o uso da estrutura estatal para fins eleitorais.
A postura técnica e rígida de Almada já acumulava atritos com o grupo político ligado a Bolsonaro em episódios anteriores. Em abril de 2021, o delegado assumiu a Superintendência da PF no Amazonas em substituição a Alexandre Saraiva, afastado após enviar uma notícia-crime ao STF contra o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acusado de patrocinar interesses do setor madeireiro ilegal no âmbito da Operação Handroanthus. Sob a gestão de Almada, a Polícia Federal amazonense manteve as rotinas de combate aos crimes ambientais por meio do Grupo de Investigações Ambientais Sensíveis (GIASE/AM).
Com o início da gestão do presidente Lula (PT) em 2023, Almada foi designado para assumir a Superintendência da PF no Rio de Janeiro, nomeação que sofreu forte oposição e tentativas de veto do então governador fluminense Cláudio Castro (PL), aliado de Bolsonaro. Apesar das pressões, o delegado assumiu o posto e deu continuidade a trabalhos de inteligência cruciais.
Almada já havia comandado, em 2019, o inquérito federal que desarticulou uma farsa montada na Polícia Civil do Rio de Janeiro para desviar os rumos da investigação sobre a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes. De volta ao comando da PF no Rio em 2023, sua equipe deu suporte decisivo para consolidar as delações premiadas de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, culminando na prisão dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes do crime, além do indiciamento e prisão do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa por planejamento e obstrução de justiça. Paralelamente, a PF sob sua gestão avançou em apurações sobre esquemas de corrupção na administração do estado do Rio de Janeiro.
Em dezembro de 2024, Leandro Almada foi promovido a Diretor de Inteligência Policial (DIP) da PF em Brasília, passando a centralizar o suporte analítico a inquéritos sigilosos em curso no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), incluindo investigações sobre atos antidemocráticos e redes ilícitas de monitoramento.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Brasil 247

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