Ibovespa dispara e tem terceira maior alta mensal em 16 anos. Dólar tem maior queda em 4 anos

Com valorização de 12,56% em janeiro, o Ibovespa registrou sua terceira maior alta mensal desde 2010, segundo levantamento de Einar Rivero, da consultoria Elos Ayta.
O resultado fica atrás apenas de março de 2016, quando o principal índice da bolsa avançou 16,97%, e de novembro de 2020, que teve alta de 15,90%.
Entre os meses de janeiro, foi o melhor desempenho desde 2006, quando subiu 14,55%, segundo dados da B3.
O Ibovespa encerrou esta sexta-feira (30) em queda de 0,97%, aos 181.364 pontos. Ainda assim, o recuo não foi suficiente para apagar os ganhos: além do avanço no mês, o índice acumula valorização de 42,90% em 12 meses.
Para analistas do mercado, não se trata de empolgação passageira. A expectativa é que o Ibovespa mantenha o fôlego e encerre 2026 com desempenho sólido, apoiado em fatores econômicos relevantes ao longo dos próximos meses.
Entre os principais vetores estão os possíveis cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos — movimentos que tendem a favorecer ativos de maior risco, como as ações negociadas em bolsa.
Além disso, as ofensivas geopolíticas do presidente americano, Donald Trump, têm gerado instabilidade e receio nas economias desenvolvidas, levando investidores a buscar mercados emergentes, como o brasileiro.
Mas o cenário não é garantia de resultados: os mesmos fatores de incerteza que favorecem o mercado brasileiro podem, a depender dos desdobramentos, frear ou reverter a alta. Nesse contexto, pesam especialmente a imprevisibilidade de Trump e o cenário eleitoral no Brasil.
Entenda abaixo como cada um desses pontos impacta os mercados e o que esperar para o Ibovespa em 2026.

Juros no radar e o Brasil como ‘porto seguro’
O Banco Central do Brasil (BC) sinalizou que vai começar a reduzir a Selic em março. A projeção do mercado financeiro é que a taxa básica de juros, atualmente no maior nível em quase 20 anos, caia 2,75 pontos percentuais até o fim de 2026, passando de 15% para 12,25% ao ano.
Nos EUA, também há expectativa de corte nos juros até o fim deste ano. Em 2025, o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, cortou a taxa três vezes, reduzindo o referencial à faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, o menor patamar desde setembro de 2022.

• 🔎 Na prática, juros menores nos EUA diminuem o rendimento das Treasuries, os títulos do governo americano, que são vistos como os investimentos mais seguros do mundo. O movimento faz investidores buscarem aplicações mais rentáveis em mercados emergentes. Nesse cenário, o Brasil tem se destacado, favorecendo a bolsa e o real.

“Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança”, explica André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica.
O especialista reforça que os riscos geopolíticos intensificados por Trump — como a ofensiva na Venezuela, que resultou na prisão do líder Nicolás Maduro, e as ameaças de anexação da Groenlândia — têm tornado o Brasil um “porto seguro”, com potencial de boa rentabilidade para investidores.
O g1 já mostrou que a bolsa brasileira passou a ser vista como relativamente barata e com maior potencial de retorno. Com investimentos no exterior oferecendo ganhos menores, investidores têm antecipado compras de ações de empresas brasileiras, em busca de valorização.

Entrada de estrangeiros
Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, destaca que o investimento internacional tem desempenhado papel preponderante no mercado interno.
Em 2025, investidores não residentes no Brasil aplicaram R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa de valores brasileira, lembra o economista. “Em 2026, até 20 de janeiro, esses investidores já somam R$ 8,7 bilhões líquidos em compras de ações brasileiras.”
“Ou seja, o investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice local renovar máximas é grande”, acrescenta.

Mas o que pode azedar os ânimos?
Para economistas, a palavra que deve resumir o Ibovespa em 2026 é volatilidade. Embora as projeções ainda apontem para um saldo positivo, o sobe e desce da bolsa deve ganhar protagonismo diante do fator Trump e do calendário eleitoral brasileiro, em outubro.
André Galhardo, da Análise Econômica, destaca que investidores não avaliam apenas o potencial de valorização das empresas listadas, mas também os riscos no radar.
“Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo”, analisa.
Dyego Galdino, CEO da Global 360 Invest, segue a mesma linha. Ele reforça que a política comercial do republicano, por meio de ameaças e aplicação de tarifas, pode gerar pressão inflacionária global e afetar os preços das commodities.
“Os resultados das grandes empresas podem desacelerar, deixando o mercado dependente das expectativas em relação às empresas de tecnologia”, diz.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que a alta de 34% do Ibovespa em 2025 foi puxada exclusivamente por fatores externos e que o Brasil, apesar do bom desempenho da bolsa, segue enfrentando problemas fiscais — ou seja, dificuldades nas contas públicas.

• 🔎 A preocupação com os cofres públicos brasileiros ganhou destaque nos últimos anos, mas acabou ficando temporariamente “na gaveta”, enquanto o mercado passou a acompanhar com mais otimismo a redução dos juros nos EUA e os preços ainda baixos das ações brasileiras.
Por isso, “alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia”, diz Costa, ao indicar os riscos fiscais do país como um desafio.

O peso das eleições
As eleições devem ter papel central na volatilidade da bolsa e do dólar. Para especialistas, a oscilação do Ibovespa em dezembro funcionou como um termômetro do que o mercado deve acompanhar neste ano.
Naquele mês, o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, por exemplo, fez o dólar disparar e a bolsa recuar mais de 4% em apenas um dia.
• 🔎 Para o mercado, a escolha dificulta a convergência em torno de um candidato de centro-direita — como Tarcísio de Freitas, visto como mais competitivo para unificar a direita e enfrentar Lula (PT) — e amplia a incerteza sobre ajustes fiscais mais consistentes.
Em janeiro, porém, novas pesquisas eleitorais colocaram Flávio Bolsonaro em segundo lugar na disputa e mostraram que a vantagem de Lula em um eventual segundo turno diminuiu. O movimento contribuiu para a queda do dólar e a alta do Ibovespa.
Rafael Costa, da Cash Wise Investimentos, avalia que a Faria Lima não está preocupada necessariamente com o nome do vencedor, mas com os rumos da economia no próximo governo.
“Porém, é difícil esperar mudanças econômicas do atual presidente. Então, a reeleição de Lula pode causar uma quebra de expectativa no mercado”, diz.
Já André Galhardo, da Análise Econômica, acredita que um ajuste nas contas públicas é necessário — e, por isso, deverá ser anunciado no início de 2027, independentemente do presidente eleito.
“A Faria Lima tende a acreditar que uma reforma nas despesas é mais provável em governos de direita. Mas qualquer vencedor terá de adotar uma política de contenção de gastos, o que pode impactar positivamente o dólar e o mercado de ações no Brasil”, diz.

Até onde o Ibovespa pode ir?
Caso o cenário positivo prevaleça, há espaço para que o principal índice da B3 ultrapasse, pela primeira vez, os 200 mil pontos, segundo as projeções mais animadoras.
• Analistas do Itaú BBA, por exemplo, avaliam que o Ibovespa pode encerrar o ano aos 185 mil pontos. Em uma leitura mais otimista, o índice poderia superar os 252 mil pontos.
• A Santander Corretora, por sua vez, projeta que o índice alcance 195 mil pontos ao fim de 2026, com sucessivas renovações de recordes ao longo do ano.
Rafael Costa, da Cash Wise, destaca que o índice não deve avançar de forma linear, em razão da volatilidade do mercado.
“Onde o Ibovespa vai parar? Aos 180 mil, 200 mil, 250 mil pontos? Ninguém sabe. Mas, sim, há uma grande possibilidade de o mercado continuar avançando neste ano”, afirma.
Relembre o que fez a bolsa disparar em 2025

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o bom desempenho da bolsa brasileira no ano refletiu, sobretudo, os seguintes fatores:
• Cortes de juros nos EUA, com expectativa de novas reduções em 2026;
• Realocação de investimentos em meio a incertezas sobre as contas públicas e a política econômica de Donald Trump nos EUA, o que favoreceu ativos brasileiros;
• Expectativa de cortes de juros no Brasil, com o mercado de olho em 2026;
• Maior resiliência do Brasil nas tensões comerciais com os EUA, reduzindo impactos sobre empresas exportadoras;

• Ações de empresas brasileiras ainda negociadas abaixo dos níveis pré-pandemia, o que atraiu investidores;
• Expectativa de mudanças no cenário político, em especial na condução das contas públicas, com a proximidade das eleições de 2026.

DÓLAR ATINGIU MAIOR BAIXA EM QUATRO ANOS E PODE CAIR AINDA MAIS
As sucessivas quedas do dólar americano nos últimos meses colocaram em dúvida se a moeda preferida do mundo estaria perdendo seu status.
Após um ano de 2025 dramático, quando os anúncios de tarifas de importação do presidente americano Donald Trump fizeram o dólar desabar, os traders esperavam que 2026 seria mais calmo.
Mas as últimas semanas abalaram esta expectativa.
Na terça-feira (27/1), o dólar caiu para o seu ponto mais baixo dos últimos quatro anos em relação a uma cesta de moedas. E atingiu o nível mais baixo de muitos anos em comparação com o euro e a libra esterlina, caindo 3% em cerca de uma semana.
Desde então, a queda diminuiu, mas os analistas preveem que esta recuperação provavelmente será temporária.
“A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”, afirma Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do grupo ING. “Ainda não há consenso sobre quando, mas sim sobre qual direção ele irá tomar.”
O dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos, como bem sabem os viajantes internacionais. E analistas afirmam que há o risco de que esta tendência, se continuar, alimente a inflação interna nos Estados Unidos, com o aumento dos preços dos produtos importados no país.
A queda também levantou questões maiores, como se o status do dólar como a moeda preferida do mundo (o que ajudou a manter os custos dos empréstimos nos Estados Unidos relativamente baixos por décadas) poderia estar ameaçado.

O que aconteceu com o dólar?
O dólar vem se enfraquecendo depois de mais de uma década de valorização, com ganhos especialmente altos entre 2020 e 2022.
Naquela época, o crescimento dos Estados Unidos após a pandemia e as taxas de juros relativamente altas aumentaram a demanda da moeda entre os investidores.
Mas, no ano passado, o índice do dólar, que acompanha seu valor em relação a uma cesta de moedas, caiu em quase 10%. Foi o pior desempenho desde 2017.
Grande parte deste declínio ocorreu nas semanas que se seguiram ao chamado “Dia da Libertação” (2 de abril de 2025), com o anúncio das tarifas de importação de Donald Trump.
Neste mês, o dólar caiu ainda mais com o crescimento das tensões entre os Estados Unidos e a Europa em relação à Groenlândia.
E as perdas continuaram esta semana, em meio às especulações de que os EUA poderiam estar considerando ações que enfraqueceriam o dólar ainda mais, como a venda da moeda ao lado do Japão para ajudar a promover o iene, que também vem enfrentando suas próprias quedas.

POR QUE O DÓLAR ESTÁ CAINDO?
Analistas afirmam que a queda do dólar, em parte, é um sinal das preocupações do mercado em relação às políticas do governo Trump.
“Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”, segundo Robin Brooks, do Instituto Brookings e ex-estrategista de mercado de câmbio do banco de investimentos Goldman Sachs.
Brooks destaca similaridades entre as reações negativas sobre as tarifas e a Groenlândia.
Para ele, o declínio do dólar “é basicamente um reflexo dos mercados, dizendo que estas idas e vindas caóticas prejudicam os Estados Unidos, mais do que qualquer outra coisa”.
Embora os mercados parecessem inabaláveis frente às efervescentes questões geopolíticas que se prolongaram até este ano, a rápida escalada das tensões comerciais em relação à Groenlândia alterou este panorama, segundo Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e taxas de juros do grupo financeiro Macquarie.
“Acho que isso desencorajou as pessoas”, segundo ele.
Wizman destaca que o dólar não só caiu este mês, mas as apostas de que a moeda irá sofrer oscilações futuras também aumentaram.
Existem ainda outros fatores, como o aumento das oportunidades de investimento no exterior e, nos últimos dias, o movimento de venda do mercado japonês de títulos.
Este movimento levou alguns traders a lançar apostas destinadas a aproveitar a diferença de valor entre o iene e o dólar.
Comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, negando a intervenção dos Estados Unidos para ajudar o Japão, ajudaram a estabilizar o dólar esta semana. Mas analistas afirmam que ainda há incertezas em relação a quais ações o governo Trump poderá tomar em seguida.

Para onde vai o dinheiro?
A saída dos investidores do mercado do dólar ajudou a alimentar a alta do preço do ouro.
A cotação do metal dobrou no ano passado, com os investidores buscando um lugar de baixo risco para investir seu dinheiro.
E, embora outras moedas nacionais aparentemente tenham lucrado pouco com o redirecionamento de fundos no ano passado, existem sinais de que esta situação pode estar começando a mudar.
O euro e a libra foram algumas das moedas que viram seus valores avançarem em relação ao dólar em janeiro. E as moedas de 11 entre 19 mercados emergentes, acompanhadas pela empresa de consultoria Oxford Economics, também se valorizaram em mais de 1%.
Os investidores globais também podem estar saindo dos Estados Unidos. Fundos de pensão da Holanda e da Dinamarca estão reduzindo suas posições no mercado de bônus do tesouro americano.
Mas Turner acredita que os mercados ainda estão muito distantes de uma “completa narrativa Sell America”, ou seja, de redução da sua posição de ativos dos Estados Unidos.
Ele destaca que a ação de venda de ativos americanos praticamente se limitou ao dólar.
Turner e outros observam que o mercado de ações dos Estados Unidos ainda flutua em meio a recordes de alta. E as movimentações no mercado de dívida do governo americano têm sido relativamente contidas.
Ainda assim, o ING espera que o dólar caia mais 4% a 5% este ano, à medida que aumentam as perspectivas de crescimento fora dos Estados Unidos.

Trump realmente quer um dólar mais fraco?
No momento, a queda do dólar permanece em níveis que provavelmente farão com que o impacto para os consumidores americanos se mantenha como “ruído”, segundo Brooks.
Mas o que irá acontecer em seguida depende, em parte, do desempenho econômico dos Estados Unidos e da rapidez com que o Federal Reserve (o Banco Central americano) venha a baixar as taxas de juros.
Trump montou uma intensa campanha pela redução mais rápida das taxas de juros e já se esperava que ele indicasse para chefiar o banco alguém mais favorável a essas exigências.
O presidente americano nomeou nesta sexta-feira (30/1) o economista Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no comando do Fe
“Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona”, escreveu Trump na rede social Truth Social.
A indicação de Warsh ainda precisa ser confirmada pelo Senado americano.
Se os juros realmente caírem, a cotação do dólar poderá diminuir ainda mais, com os investidores buscando retornos mais altos em outros países.
Mas a Casa Branca poderá considerar esta queda uma boa notícia. Trump e outras autoridades do governo já se posicionaram favoráveis à ideia de um dólar mais fraco, o que poderá aumentar a competitividade das exportações americanas.
“Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco… do que com um dólar forte”, declarou Trump, em julho passado.
Questionado sobre as quedas esta semana, o presidente afirmou achar que a moeda está “indo muito bem”.
Para Brooks, a queda sustentada do valor do dólar poderá ajudar a impulsionar as empresas americanas. Mas ele alerta que os ganhos podem ser limitados se esta queda ocorrer pelas “razões erradas”.
Para ele, se o dólar cair graças a um veredito do mercado sobre políticas ruins, “isso provavelmente é um sinal muito importante”.

G1

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