Os Próximos passos d’O Maior São João do Mundo. Como tornar uma festa de 30 dias em um projeto permanente de desenvolvimento?

Hoje é 13 de julho de 2026, e no último dia 5 se encerrou a 43ª edição d’O Maior São João do Mundo em Campina Grande. O evento se iniciou no dia 3 de junho e teve a duração de 33 dias ininterruptos de muito forró. Nesse intervalo, bastante coisa aconteceu pela cidade. A Rainha da Borborema se transforma e se veste para a festa em suas ruas, as pessoas arrumam suas casas para receber familiares e amigos, turistas ocupam a rede hoteleira, consomem em restaurantes e aproveitam para conhecer todos os atrativos que a nossa cidade tem a oferecer.
Falar sobre essa festa é algo bastante complexo e que ‘dá pano pra manga’ por ter inúmeros aspectos, pontos de vista e desdobramentos. Trata-se de uma estrutura gigantesca a ser mantida por 33 dias que exige profissionalismo e excelência em eventos de grande porte pela dimensão que alcançou. A operação do Parque do Povo não deve nada a grandes festivais que temos Brasil afora. E faço essa comparação apenas sob o aspecto logístico. Nas últimas edições, chamar o evento de “festival de música” tornou-se um termo pejorativo em parte das críticas, mas essa discussão ficará para mais adiante.
Realizar tudo isso em uma cidade de médio porte do interior do Nordeste é um mérito louvável de todos os envolvidos na organização da festa, entre eles a Prefeitura Municipal de Campina Grande, os demais entes públicos, a Arte Produções e inúmeros profissionais que atuam nos mais diversos setores do evento, mas também do público que ‘faz a roda girar’. Afinal, sem pessoas dispostas a participar da festa e a recomendá-la a outras, ela jamais alcançaria a dimensão que possui hoje.
Neste texto, as observações partem de dois olhares. O primeiro é o de quem vive o Maior São João do Mundo desde o nascimento e acompanhou todas as suas edições como brincante. O segundo é um olhar profissional, quando a criação do “Mapa do PP” em 2024 me aproximou de consultorias voltadas à cultura popular e à sua cadeia econômica, permitindo enxergar a festa também sob a ótica do planejamento e gestão.
Sempre fui apaixonado por festas populares, gosto bastante de Carnaval e de São João e acho muito bonito ver muita gente na rua celebrando algo que simplesmente existe, que não precisa de justificativas. Há 50 anos as pessoas brincavam Carnaval e São João. Daqui a 50 anos essas festas continuarão sendo celebradas. Não será da mesma forma, mas as festas existirão e terão seu estilo próprio. Acredito que a beleza e o encanto que provocam estão também nessa questão de compreender o que o tempo faz com elas.
Justamente por acreditar que as festas populares atravessam gerações porque se transformam, penso que discutir os rumos d’O Maior São João do Mundo não é um gesto de resistência às mudanças, ou uma ideia simplista de “antigamente era melhor” por qualquer razão que seja, mas de responsabilidade com aquilo que a festa se tornou. Campina Grande mudou, cresceu e passou a ser reconhecida nacionalmente por uma celebração que já não cabe apenas em um período do ano. Se em algum momento o desafio foi fazer o São João crescer, talvez agora o desafio seja compreender tudo o que uma festa dessa dimensão ainda pode fazer pela cidade durante o restante do ano.

A cidade, a festa e o espaço
É inegável também que essas festas populares tornaram-se gigantes no nosso país e são motores econômicos primordiais para determinadas localidades. O São João é por vezes chamado de “segundo natal” também por isso. Após o sucesso do formato de Campina Grande d’O Maior São João do Mundo em 1983, diversas outras cidades entenderam que ter festejos juninos prolongados é algo interessante para a economia. Hoje não é somente Campina Grande e Caruaru que têm um São João que perdura pelo mês inteiro. Mossoró-RN, Aracaju-SE e Maracanaú-CE destacam-se por terem festas prolongadas e outras com menos dias possuem seu destaque, a exemplo de Petrolina-PE, Arcoverde-PE, Patos-PB, Bananeiras-PB entre outros.
Durante 43 anos de festa, O Maior São João do Mundo teve suas diversas transformações. Construção do Parque do Povo, aumento de cenografia, mudanças de layout, expansão do espaço da festa, formato de financiamento do evento, entre outras tantas coisas. Isso tudo gera implicações que são pautas de debate. Entretanto existem algumas pautas que ainda são tímidas na nossa cidade com relação ao formato da festa.
Campina Grande em 1985 tinha cerca de 280.000 habitantes, e em 2025 teve um aumento de mais de 50% e possui cerca de 440.000 habitantes. Entretanto, mesmo com reformas recentes a área da festa que já foi de 26 mil metros quadrados, hoje dispõe de 40 mil metros quadrados após a expansão do Parque do Povo e sua exitosa integração com o Parque Evaldo Cruz. Apesar disso, os registros de lotação desde 2018 com dados disponibilizados pelo corpo de bombeiros e polícia militar demonstram que essa expansão não se converte necessariamente em aumento de público na mesma proporção, em alguns casos com diminuição significativa.

Tabela com o público máximo permitido e/ou registrado pelo Corpo de Bombeiros/Polícia Militar no MSJM.

*Edições da festa após a ampliação do Parque do Povo e mudança de Layout.
O Coronel Gilberto Felipe da Polícia Militar, em uma entrevista em 10 de Junho 2024 sobre um dia em que o Parque do Povo teve seus portões fechados alegou que mesmo com a ampliação da área da festa, em virtude de haver uma grande atração de público para a arena de shows do palco principal, o crescimento de público não pode seguir a mesma proporção do espaço, por questões de segurança relacionadas a dispersão em situações de emergência. Desse modo, é bastante comum que mesmo com as ampliações, há registro de dias em que o Parque do Povo tem seus portões fechados horas antes das principais atrações da festa se apresentarem, embora nesse ano de 2026 não haja registro de dias com portões fechados prolongadamente.

Muito além do Parque do Povo
Ano após ano a quantidade de visitantes da festa tem aumentado e esse ano a festa teve cerca de 3.5 milhões de visitantes. Tudo isso graças a diversas políticas públicas de todos os entes em incentivo à festa, como o aumento de voos dos aeroportos do estado e um reconhecimento cada vez maior da Paraíba como destino turístico. Isso é bastante positivo em diversos aspectos, mas nos impõe um desafio: Em algum momento centralizar a programação d’O Maior São João do Mundo apenas no Parque do Povo levará a um limite físico que poderá impedir turistas de ter uma boa experiência. Aumentar gradativamente o número de visitantes pode levar a uma saturação em dias mais movimentados que pode frustrar os planos de quem vem visitar o evento, por melhor que seja o planejamento da festa atualmente.
Nesse momento O Maior São João do Mundo tem programação no Parque do Povo ininterruptamente durante os 33 dias de evento, mas também aos fins de semana tem eventos na Vila do Artesão (que passou por uma reforma com ampliação da área de shows e tornou-se um ótimo equipamento) e nos distritos de Galante, Catolé de Boa Vista e São José da Mata. Destes, Galante se destaca na programação com nomes de maior destaque, pela festa ser nos arredores da antiga estação ferroviária do distrito que recebia o Trem do Forró, extinto em 2019 após o descarrilamento de uma locomotiva que felizmente não deixou feridos na ocasião.
Apesar dos eventos fora do Parque do Povo terem uma mobilização massiva com milhares de visitantes, a Vila do Artesão e Galante, que recebem as atrações de maior destaque, tem uma programação majoritariamente diurna encerrando-se ao fim da tarde, quando poderiam se estender mais por parte da noite. Alguns argumentos para esse formato pressupõem que os horários concomitantes podem “concorrer” com o Parque do Povo, quando o Quartel General do Forró tem dinâmica e fôlego próprio que pouco seria afetado por outras atividades paralelas.
A meu ver, ter Pólos Descentralizados em uma cidade que já cresceu em mais de 50% sua população desde a primeira edição pode ser bastante benéfico para todo mundo. Diversas outras festividades de São João e Carnaval têm adotado o modelo nos últimos anos que se consolida nos mais diversos espaços. Trazer o evento para outras localidades da cidade é permitir que as pessoas que não têm condições de se deslocar ao Parque do Povo (por limitação física, financeira ou familiar) possam também participar da festa, mas também permitir que àquelas comunidades se reconheçam como protagonistas do evento Maior São João do Mundo.
Essa discussão é importante e esse é o momento certo de trazê-la, em 2027 teremos um novo edital para selecionar a empresa organizadora da festa e seu formato pode ser rediscutido em diversos aspectos. No ano de 2026 um dos pontos positivos da festa foi o Governo do Estado ter voltado a ser investidor com patrocínio direto (e não somente logístico com equipamentos de saúde e segurança), a festa é financiada com patrocinadores privados e outros patrocínios via incentivos culturais pela Lei Rouanet. A possibilidade de utilizar políticas estaduais como o ICMS Cultural pode ser algo que aumente ainda mais o orçamento que permita a expansão da festa.

Como Descentralizar o MSJM?
Uma iniciativa interessante da Secretaria de Estado da Cultura é o festival itinerante “São João na Rede”, que em sua 7a edição percorreu 12 cidades do estado com diversas atrações de forró tradicional sempre unindo algum artista local com outro de maior renome regional ao custo total de R$ 1,1 milhão (menos da metade do valor diretamente aportado pelo Governo do Estado à edição deste ano do MSJM de R$ 2,5 milhões). O evento também tem apresentações de quadrilhas e outros grupos folclóricos, o que é importante para movimentar as comunidades e aproximar as crianças de movimentos da cultura popular. Acontecendo dessa parceria continuar, uma adaptação desse modelo poderia ser uma alternativa interessante para levar aos bairros de Campina Grande muitas festividades e ainda movimentar a economia de diversas comunidades.
Outras localidades utilizam-se de modelos descentralizados para direcionar a alguns gêneros específicos, Caruaru e Mossoró destacam-se nessa direção. Acredito que esses formatos de segmentação de gênero permite a artistas locais que não estão ligados aos ritmos da festa também possam ter a oportunidade de se apresentar. Sejamos francos, dificilmente em junho em Campina Grande alguém vai promover uma roda de samba ou um show de rock/mpb. Se há esse espaço para artistas de outros gêneros no palco principal, é interessante abrir espaços para que os artistas da terra de outras vertentes possam ser contemplados. Além disso, pólos direcionados exclusivamente ao forró tradicional podem ser considerados uma salvaguarda e criar uma experiência diferenciada.
Considerando que foi anunciado pela prefeitura municipal que a edição 2027 d’O Maior São João do Mundo homenageará o centenário de Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo paraibano, esse é um momento de pensar a festa não só nas expressões artísticas da dança e da música, mas trazer toda a infraestrutura na área Central de Campina Grande para esse momento. Nas imediações do Parque do Povo/Evaldo Cruz há o Teatro Municipal Severino Cabral, o Cine São José e o Cine Capitólio (que está previsto de estar pronto na ocasião) e esses locais podem servir de palco para o teatro e o cinema nos permitir se aprofundar ainda mais na obra do ilustre artista.
Dentro do próprio Parque Evaldo Cruz há ainda o palco do Quadrilhódromo, que em 2025 recebeu grandes artistas nacionais na 50a edição do Festival de Inverno de Campina Grande, mas que não tem atrações musicais de maior porte e poderia ser um segundo palco cultural (com a vantagem de ser coberto das frequentes chuvas do período junino).
Outra possibilidade seria institucionalizar uma tradição que já acontece espontaneamente. Não são raros os relatos de artistas que, após seus shows, seguem para a Feira Central ou para a Feira da Prata e acabam fazendo pequenas apresentações improvisadas ao encontrar o público. Um “After” (Ou um “Forró do Bacurau”, se quisermos um nome mais regional), iniciando após o encerramento das atividades do Parque do Povo, poderia transformar esse costume em parte oficial da programação, movimentando a economia noturna das feiras e oferecendo uma alternativa para quem deseja prolongar a experiência do São João.
A recuperação da linha férrea com a construção do VLT é um fator que irá ajudar bastante a mobilidade da cidade, entretanto é importante buscar as parcerias políticas e institucionais para viabilizar que o distrito de Galante seja contemplado e assim a Locomotiva Forrozeira possa ser novamente ativada.
Acredito que O Maior São João do Mundo deve ser um evento em que a cidade inteira está envolvida e que seus espaços, políticas culturais e econômicas precisam apontar para isso independente da época do ano.

Memória e Patrimônio
Em 2003 foi inaugurado em Campina Grande o monumento “Farra da Bodega”, duas estátuas em bronze em que Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga estão juntos em uma cena em que somos convidados a interagir e registrá-la com uma fotografia.
Antonio Barros, Biliu de Campina, Dominguinhos, Genival Lacerda, João Gonçalves, Marinês e Sivuca representam apenas alguns dos artistas que ajudaram a construir a identidade cultural de Campina Grande e do próprio Maior São João do Mundo. Outros ícones que felizmente ainda estão entre nós também merecem ter sua trajetória reconhecida em vida. Passadas mais de duas décadas da inauguração da “Farra da Bodega”, porém, a cidade ainda possui poucas homenagens permanentes à altura do legado dessas personalidades. Existe uma iniciativa nessa direção na Vila do Artesão de artistas que marcaram as mãos ali, mas ela ainda é pouco conhecida e explorada.
Quem tem uma grande devoção costuma reservar, dentro de casa, um lugar especial para aquilo que considera sagrado. O altar permanece ali durante todo o ano, lembrando diariamente aquilo que ganha maior visibilidade no dia da procissão. Imagino que com o São João deveria acontecer algo semelhante. Se junho é o momento em que a cidade celebra sua maior festa, durante os outros onze meses Campina Grande também precisa demonstrar que preserva essa memória. Monumentos, museus, memoriais e outros espaços permanentes cumprem exatamente esse papel: manter viva a história da festa e daqueles que a construíram.
A Professora Cléa Cordeiro têm um acervo magnífico com uma enormidade de informações sobre a história da festa e que anualmente o expõe em um dos shoppings da cidade durante o período junino. Para tornar isso permanente é preciso uma campanha que convidasse moradores a digitalizar fotografias, cartazes, ingressos, programas, figurinos, fitas VHS, discos e relatos pessoais, formando um grande acervo colaborativo do Maior São João do Mundo. Afinal, a história da festa não foi construída apenas pelos artistas e organizadores, mas também pelas milhares de pessoas que a viveram ao longo das décadas.
Infelizmente o turista que chegar hoje em Campina Grande não vai conseguir enxergar com clareza o porquê de aqui ter O Maior São João do Mundo. Mas basta questionar a qualquer um que viva a experiência de presenciar essa festa que vai começar a compreender, entretanto precisará retornar no período oportuno para concluir o que hoje pode apenas ser dito.

Tudo aponta para o MSJM
Vejo que Campina Grande tem buscado um caminho semelhante ao de Gramado ao consolidar sua vocação para o turismo de eventos. Assim como a cidade gaúcha deixou de depender exclusivamente da temporada de inverno e passou a construir um calendário annual com eventos voltados a diferentes públicos, Campina também vem ampliando sua agenda para atrair visitantes em períodos de menor fluxo e impulsionar a economia local.
O que considero essencial, porém, é que esses eventos tenham, sempre que fizer sentido, uma bússola apontando para O Maior São João do Mundo. Um exemplo interessante vem de Olinda, que, mesmo sendo reconhecida nacionalmente pelo Carnaval, realiza durante o mês de junho cortejos juninos com suas tradicionais agremiações carnavalescas. Além de aproveitar o fluxo de turistas do período que chegam por Recife antes de seguir para o interior, a iniciativa oferece um interessante contato com a identidade cultural da cidade. Em Campina Grande, o Natal Iluminado poderia desempenhar papel semelhante. Nas proximidades do dia 13 de dezembro, Dia Nacional do Forró, há uma excelente oportunidade para apresentar ao público um grande cartão de visitas d’O Maior São João do Mundo e reafirmar a cidade como um dos principais centros da cultura junina brasileira.
Há ainda outras iniciativas que podem contribuir para fortalecer essa identidade. Motofest, festivais de cinema, pré-Carnaval, feiras literárias, congressos educacionais e feiras de negócios, à sua maneira, podem incorporar alguns elementos que remetem ao Maior São João do Mundo. Não se trata de fazer um “tudo vira São João”, mas aproveitar cada oportunidade para demonstrar aos visitantes que Campina Grande é uma cidade cuja principal expressão cultural acontece em junho.
Se a cidade deseja consolidar-se no turismo de eventos, cada nova realização deveria fortalecer também a identidade que projetou Campina e a tornou conhecida nacionalmente. As quadrilhas juninas, os grupos folclóricos e os trios de forró parecem ser os protagonistas naturais dessa missão. Mais do que atrações de junho, eles podem atuar como embaixadores permanentes da cultura campinense, mantendo viva, durante todo o ano, a chama que faz do São João uma importante parte da identidade da cidade.

Campina Grande e o movimento quadrilheiro
Um dos acontecimentos mais interessantes do São João de 2026 não deve passar despercebido. O YouTube, em parceria com a Quaest, escolheu Campina Grande para lançar um amplo inventário sobre o movimento das quadrilhas juninas no Brasil em uma iniciativa articulada pela Travessia de Impacto. A pesquisa reconheceu a cidade como um dos principais espaços para compreender esse fenômeno cultural, que mobiliza milhares de pessoas durante praticamente todo o ano e envolve muito mais do que as apresentações realizadas em junho. Os preparativos para a festa renderam uma série de documentários que podem ser vistos aqui.
Esse reconhecimento reforça uma percepção importante: as quadrilhas deixaram de ser apenas uma atração do São João. Elas constituem um movimento permanente de criação artística, formação cultural e organização comunitária, movimentando figurinistas, costureiras, cenógrafos, coreógrafos, músicos, iluminadores, produtores e dezenas de outros profissionais muito antes de os primeiros arraiais serem montados.
Infelizmente o grande contraste com esse reconhecimento é que muitos desses trabalhadores não conseguem viver exclusivamente dos grandiosos espetáculos que anualmente realizam, na imensa maioria dos casos pagando as custas de equipamentos e figurino. O talento é tão proeminente que profissionais de pirotecnia têm sido convidados para juntar-se a diversos conjuntos musicais Brasil afora.
Esse protagonismo também começa a aparecer nas iniciativas da própria sociedade civil. A Quadrilha Junina Moleka 100 Vergonha, por exemplo, não se limita aos espetáculos apresentados durante o período junino. Além de realizar o Maior Festival de Quadrilhas Juninas do Mundo, reunindo grupos de diversas regiões do país em Campina Grande, mantém a Fábrica Junina, iniciativa voltada à formação artística e ao fortalecimento de conhecimentos em produção cultural, políticas públicas e gestão de projetos. São ações que demonstram como o movimento quadrilheiro pode extrapolar o calendário da festa e atuar como agente permanente de formação, inovação e desenvolvimento cultural.
Talvez esse seja o sinal mais claro do potencial desse movimento. Já não são apenas empresas interessadas em ativar suas marcas durante o mês de junho, mas instituições e patrocinadores que enxergaram valor em um segmento cultural organizado institucionalmente e com competência técnica e artística desses profissionais.
É nesse contexto que surge também a proposta do Quadrilhódromo, defendida pela ASQUAJU. Assim como Parintins possui o Bumbódromo e o Rio de Janeiro consolidou o Sambódromo como equipamento permanente para o carnaval, Campina Grande pode discutir a criação de um espaço voltado ao movimento quadrilheiro. Mais do que uma estrutura para apresentações, um equipamento desta natureza representaria o reconhecimento de um patrimônio cultural que já ultrapassou os limites do calendário junino e passou a integrar, de forma permanente, a identidade da cidade.

O que tem sido feito
Ao longo deste texto procurei defender que uma cidade autoproclamada Capital Mundial do Forró deve ser mais do que um grande evento realizado durante trinta e três dias. Periodicamente é preciso realizar pequenas experiências que mantenham essa chama acesa nos moradores e visitantes. A boa notícia é que algumas iniciativas recentes indicam que essa discussão já começou e que diferentes atores da cidade passaram a enxergar possibilidades semelhantes.
Em maio de 2024 a Secretaria Municipal de Cultura iniciou um evento chamado “Campina São João o Ano Todo” (Em algumas chamadas aparece como “Campina, São João o Ano Inteiro”) que tem buscado atingir muito do que aqui foi relatado, entretanto desde Outubro de 2025 não há registros de edições desta iniciativa pela cidade. Acredito que ter uma solidificar o projeto em um local para conquistar público e espaço na agenda local é importante. A estrutura atual da Vila do Artesão pode permitir essa incubação e uma forte divulgação para conquistar o público necessário para, após certo amadurecimento do formato, permitir ao projeto de se espalhar pela cidade de forma mais consistente.
Há alguns anos acontece uma em homenagem ao dia nacional do forró dentro da programação do Natal Iluminado, mas a marca “Campina, São João o ano todo” ou d’O Maior São João do Mundo não são inseridas ali. Acredito que isso pode ser solidificado e melhorado. Ainda mais quando o planejamento da próxima edição já se iniciou com a definição de um homenageado e que não faltam elementos estéticos e artísticos que podem mostrar ao mundo inteiro que algo grandioso está por vir.
Enquanto esse texto era finalizado outra iniciativa foi anunciada. Entre julho e agosto a ASQUAJU vai realizar junto às quadrilhas juninas de Campina Grande o “Circuito Alavantú nos Bairros”. Com apresentação de diversos artistas locais e as quadrilhas de cada comunidade da cidade levando seus espetáculos durante os fins de semana nos meses de julho e agosto.
Outra discussão recente é que o prefeito Bruno Cunha Lima anunciou nos últimos dias que há um projeto em estudo de construir uma cobertura permanente para a parte superior do Parque do Povo para permitir um melhor aproveitamento da área no evento e reduzir o impacto das frequentes chuvas que o período junino costuma ter e que diminui a quantidade de público do evento. Caso avance, será um projeto que exigirá amplo debate técnico e arquitetônico para garantir que a solução preserve a paisagem e a identidade visual daquele que talvez seja o principal cartão-postal da festa.

Sobre tornar-se um “Festival”
Há um debate que todo ano é bastante acalorado e que acredito que nunca deixará de ser: a curadoria artística da programação. A presença de artistas da MPB, samba, sertanejo e do pagode mostra que O Maior São João do Mundo alcançou um tamanho que desperta o interesse de diferentes segmentos da música brasileira. Esse movimento não é novidade, mas sempre que um nome inesperado surge, volta a ser pauta. O desafio, na minha opinião, não é restringir gêneros, mas fazer com que qualquer artista compreenda que subir ao palco de Campina Grande exige uma reverência à cultura junina.
Esse ano podemos destacar positivamente dois episódios. Marisa Monte e Martinho da Vila incorporaram sanfoneiros às suas apresentações e dedicaram parte do repertório ao forró. A cidade também foi palco de um belíssimo concerto da Orquestra Sinfônica da Paraíba convidando Petrúcio Amorim e Gitana Pimentel cantando clássicos do forró, além da apresentação da Orquestra Petrobras Sinfônica no palco principal do Parque do Povo, também com repertório junino. Esses encontros demonstram um caminho interessante: transformar o São João em um espaço de espetáculos concebidos especialmente para Campina Grande.
Dito isso, relembrando o que foi falado anteriormente de reverenciar grandes artistas do Forró autêntico que ajudaram a construir e popularizar esse ritmo e estão em atividade, é necessário que estes não só estejam na grade artística, mas que tenham o merecido destaque, valorização e reverência ao serem anunciados. Ao mesmo tempo que eles sentem-se honrados em pisar no palco do Maior São João do Mundo, a reciproca também é verdadeira, é uma honra para Campina Grande ter em seu evento grandes baluartes do forró.
Os grandes festivais do mundo costumam ser lembrados por apresentações inéditas, encontros improváveis e experiências que só acontecem naquele palco. O Maior São João do Mundo já alcançou maturidade suficiente para fazer o mesmo. Mais do que contratar grandes artistas, talvez tenha chegado o momento de criar apresentações que só acontecem em Campina Grande. Afinal, é essa exclusividade que transforma um show em uma experiência e uma grande festa em uma referência cultural.

O que sobrou dessa festa?
O Maior São João do Mundo chegou até aqui porque nunca deixou de se transformar. Ao longo de mais de quatro décadas, a festa cresceu, mudou de formato, ampliou seus espaços, conquistou novos públicos e consolidou-se como um dos maiores patrimônios culturais do Brasil. Não há motivo para imaginar que esse processo tenha chegado ao fim.
Algumas das ideias apresentadas ao longo deste texto talvez possam ser colocadas em prática semana que vem ou já na próxima edição do evento. Outras dependerão de anos de planejamento e investimentos. Algumas outras podem ser que nem sejam as mais interessantes e outras iniciativas melhores podem tomar espaço. O mais importante, é que essa discussão não aconteça apenas quando uma polêmica surge ou quando o mês de junho se aproxima e uma nova programação do evento é divulgada. Uma festa dessa dimensão merece ser pensada continuamente por quem a organiza, por quem dela participa e, principalmente, por quem a vive. Literalmente há diversas famílias que tiram o sustento de um ano inteiro com o mês de junho em Campina Grande.
O Maior São João do Mundo faz parte da história de Campina Grande, mas também faz parte da biografia de grande parte da sua população. E talvez seja justamente por isso que o seu futuro deva ser construído coletivamente e seus resultados devem ser sentidos por toda a cidade em seus 61 bairros, distritos e zona rural.

Escrito por Arthur Carneiro
Cientista de Dados, Engenheiro Eletricista, Consultor. Criador do Mapa do PP e Mapa do Carnaval de Olinda

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